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Acabou a trégua.

Posted by Márcio Gonçalves em março 6, 2014

Vamos supor os seguintes fatos:

1 – o favoritismo de Dilma Roussef nas eleições presidenciais de 2014 contraria muitos interesses: indústrias petrolíferas americanas, capital financeiro, etc

2 – existe um esforço consciente para desestabilizar o país e dificultar a reeleição de Dilma.

Partindo destas premissas, dá para considerar como linhas de ataque ao governo federal:

a – manifestações violentas que passam a imagem de um país instável, e que vem ocorrendo desde junho de 2013

b – noticiário econômico extremamente negativo, cuja última criação é a “tempestade perfeita” de adversidade que fará a economia ruir ainda este ano

c – desmoralização do PT  através do processo do “mensalão”, a Ação Penal 470 do Supremo Tribunal Federal (STF).

d – delírios paranoicos de que o PT vai implantar o comunismo no Brasil, através de uma grande conspiração envolvendo Cuba e Venezuela (ao contrário dos anteriores, este não é propagado pelos meios de comunicação tradicionais).

Bem, acabou a trégua carnavalesca. Todos as linhas de ataque repensam suas táticas de atacar o governo e vão partir para cima. Curiosamente, todas menos o delírio paranoico sofreram entreveros recentemente:

  • As manifestações tiveram que arcar com o acontecimento histórico de, pela primeira vez, um manifestante matar uma pessoa, o cinegrafista Santiago Andrade, em 06/02/14.
  • O noticiário econômico pessimista sofreu um baita revés com o PIB de 2,3% em 2013, superior ao dos EUA e ao da Zona do Euro, em 27/02/14
  • O julgamento do mensalão sofreu um baque após a indiscrição grosseira de Joaquim Barbosa, de que incluiu acusações unicamente para aumentar penas e fugir das prescrições, em 26/02/14.

Só os delírios conspiratórios da extrema-direita não sofreram reveses e  até marcaram para 22/03/14 uma “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, pedindo Golpe Militar (!!!) e relembrando a outra passeata de mesmo nome de 50 anos atrás, que também foi prelúdio para um golpe. (No fundo, acho que esta convocação é só para testar se a sandice tem algum poder de mobilização).

E os revezes não impedem que as outras táticas sejam adaptadas aos novos momentos.

O julgamento do “mensalão” agora vai ser tratado como uma “farsa” e os novos ministros serão execrados pela mídia. O problema é que o crime efetivamente cometido pelo PT, caixa-dois eleitoral, tem penas ridículas (as elites nunca fazem leis que vão realmente ameaçá-las).  O crime moral do PT, que sempre pregou ética e transparência, seria maior que a sua punição. Então foi necessário às forças oposicionistas criar o máximo de escândalo e dar a máxima punição para desmoralizar o partido que controla o poder executivo. Assim, farsa foi o que ocorreu antes, onde foram incluídas acusações como “lavagem de dinheiro” para aumentar penas e teorias como “domínio do fato” foram usadas para condenar sem provas, conforme reconhecido até por um juiz de direita como Ives Gandra Martins. Com a possível revisão de parte dos absurdos do julgamento do “mensalão”, o troglodita Joaquim Barbosa vai ter o álibi que necessita para se lançar candidato a presidente e fazer “a justiça que o sistema não lhe permite fazer”, como nesta ótima especulação do blog do Renato Rovai.

O noticiário econômico vai continuar o pior possível. Vai haver algum outro “pânico do tomate”, ainda por ser escolhido. Até Delfim Neto escreveu por aí que o bicho vai pegar. Como Delfim sempre foi próximo a este governo, isto é mais uma mostra de como a aliança com o capital é instável. Ah, e não espere que o Financial Times peça desculpas à Guido Mantega. Pra quem não lembra, o periódico inglês pediu (mais uma vez) que o ministro da Fazenda fosse demitido. Uma vez que o PIB britânico de 2013 foi inferior ao brasileiro, eles podiam reconsiderar quem deveria ser demitido…

O caso das manifestações é o mais complexo. Foi a linha de ataque que mais “sangrou” o governo, e já passou por duas mudanças de tática. No início de junho/2013 era tratado pela mídia como coisa de malucos. Subitamente, passaram ser endeusados, mesmo que “um pequeno grupo fizesse atos de vandalismo” no final de cada manifestação. Parece que a ideia era explorar ao máximo este conflito na Copa do Mundo. Mas a morte de Santiago Andrade trouxe outra reviravolta.

Desde o final do ano passado, ando desconfiado que alguém estava querendo um cadáver nas manifestações. Quando Santiago foi atingido, havia um discurso de que ele era “vítima da polícia”. Vejam o fluxo de comentários abaixo, retirados do site Diário do Centro do Mundo:

cinegrafista_policia_BBs

eis o mantra “a violência sempre parte da polícia”

Acredito que já havia uma história pronta no momento em que surgisse o “morto pela polícia”: manifestações e mais manifestações contra a “violência do Estado”, “não pararemos as manifestações até a renúncia do governador assassino”, e por aí vai. Mas a partir do momento que ficou insustentável a versão de que a polícia matara Santiago, mudou a forma como a grande mídia enquadrava as manifestações. Agora a grande ameaça não eram os governantes, mas os “jovens aliciados por R$ 150,00 pelo PSOL, Marcelo Freixo e a maléfica Sininho” e, além disso, era preciso “legislação específica para coibir os abusos em manifestações”.  Se alguém na esquerda contava com simpatia eterna da mídia, quebrou a cara. E, sinceramente falando, acho que alguns setores destas manifestações só lamentam a morte de Santiago porque atrapalhou a cobertura que tinham da mídia e ainda esperam conseguir o “morto pela PM” durante a Copa do Mundo. Pois é.

Como o mundo não para de rodar, após os últimos eventos na Ucrânia as “manifestações” estão meio expostas como um novo tipo de intervenção dos E.U.A.. No caso de Kiev, os yankees deram apoio logístico até a neonazistas (!!!). Isto explica algumas semelhanças no discurso e nos métodos entre eventos no Egito, Líbia, Turquia, Tailândia, Venezuela e… Brasil, sim Brasil – agora ficou claro mesmo que não era só por vinte centavos… Pena que pessoas a deputada Luciana Genro (PSOL-RS) pensem diferente, como visto no facebook dela:

Erro sério de Luciana Genro

Erro sério de Luciana Genro

O problema é que Luciana é candidata à vice-presidente do Brasil. “Revolução popular”?… Francamente.

E, por fim, tudo ainda está em aberto. Pode ser que daqui a sete dias todas as táticas de desestabilização do governo (ou “sacolejões”, como disse um certo cínico) estejam repensadas de novo. E pode ser que surja alguma nova. De qualquer forma, este ano continua prometendo fortes emoções.

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