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Poder Formal e Poder Real

Posted by Márcio Gonçalves em maio 25, 2014

As pessoas são a fonte do poder real

As pessoas são a fonte do poder real

A verdadeira fonte de poder, o poder real, são as pessoas. As maiorias decidem como viver e que ações vão tomar para atingir seus objetivos. Assim, o poder real é o poder das maiorias, é o poder que deveria ser respeitado e honrado nas sociedades humanas, deveria ser respeitado e honrado nas democracias. Mas sabemos que não é assim. As minorias sempre se impuseram às maiorias através de vários modos de poder das minorias:

– o poder da força física: os exércitos, as polícias, a violência física

– o poder econômico: as maiorias precisam trabalhar para viver, o dinheiro é o instrumento de prisão de indivíduos, famílias e países inteiros (através de endividamentos)

– o poder de formar opinião: convencer as maiorias a não questionarem nada porque “as coisas são assim” por alguma razão fatalista ou metafísica. As religiões organizadas têm uma lamentável tradição histórica de exercer este papel.

Mesmo a democracia formal, onde o eleitor é escutado na escolha de representantes, involuiu e hoje as eleições  estão tão contaminadas pelo poder econômico que dificilmente os governos conseguem existir sem estar ancorados em algum apoio do capital. O poder formal está submetido ao poder econômico.

O PT FOCOU NO PODER FORMAL

O PT sempre buscou o poder formal, mas nos anos iniciais tinha um importante componente de busca do poder real, de trabalho na base social em sindicatos, associações estudantis e igrejas. Com a eleição de José Dirceu para a presidência do partido em 1995, houve uma guinada. O PT meio que desistiu de conquistar as consciências para chegar ao voto; os votos bastam, obrigado. Pragmatismo à toda prova.

O eleitor vota com o bolso. Se ele acha que seu bolso está bem, tende a votar na situação. Se ele acha que seu bolso está ruim, tende a votar na oposição. Simples assim. A história das eleições recentes têm exemplos.O voto ideológico é minoria.  Sabendo disso, e sabendo que o fiasco do segundo mandato de Fernando Henrique ia gerar uma brecha, o PT apostou no recall dos eleitores e em tornar-se palatável para o capital, que nunca gostou muito dele.

E, para se manter no poder formal, fizeram o que todos fazem: caixa-dois, apoio  dos políticos fisiológicos (Sarney, Renan, etc.), concessões ao capital. As empreiteiras estão satisfeitas com o PT, bem como os varejistas. O capital industrial faz um jogo duplo, enquanto o capital financeiro simplesmente o detesta.

Mesmo com todas estas concessões e acordos, que faz com que a esquerda enxergue o PT como gerente da ordem neoliberal, a imprensa tradicional trata o PT como se fosse um grupo de comunistas radicais prestes a usurpar o país. Ataque dos dois lados

Com todas as críticas que se possa ter, os anos Lula e Dilma efetivamente foram um governo de centro-esquerda com viés nacionalista, desenvolvimentista e de inclusão social. Mas os interesses que ele contraria podem feri-lo de morte se ele não buscar alguma forma de se envolver com o poder real, se não trabalhar a conscientização das pessoas. A tal “ferida de morte” já aconteceu antes com Getúlio Vargas e João Goulart…

 MOVIMENTOS SOCIAIS E PODER REAL

Nas muitas manifestações atuais, vejo coisas boas e alguns problemas. Entre as coisas boas é gente bem-intencionada e cheia de energia realmente preocupada com nossas mazelas sociais, tanto as do momento quanto as mais antigas. A intromissão violenta e ganaciosa da FIFA, remoções de moradia abruptas, os problemas de saúde, educação e transporte público.

A primeira coisa que me preocupa é o descolamento destes movimentos com a grande maioria das pessoas. Basicamente há uma adesão apaixonada de pessoas com mais escolaridade e um perfil de classe média e nada de povão. Este descolamento demonstra uma ineficiência de transmitir o que se considera mais certo para quem supostamente mais precisa. Isto me lembra como os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura militar morriam sem nenhum apoio popular. O poder rela é o poder das maiorias, não esqueçamos. Quando somos “poucos e esclarecidos”, o melhor é esclarecer mais gente.

A segunda coisa é um padrão que me preocupa nas manifestações que têm surgido pelo mundo dese 2011:

Manifestações na Espanha: a direita ganha as eleições e arrocha o povo no estilo FMI
Manifestações no Egito: derrubam um ditador, depois derrubam um governo eleito, e aí vem o golpe militar
Manifestações na Líbia: derrubam um ditador mas o país se torna uma terra de ninguém
Manifestações na Ucrânia: derrubam um governo eleito que a população considerava corrupto, mas extremistas de direita e neonazistas tomam o controle.
Manifestações na Tailândia: derrubam um governo eleito através de um golpe militar para “por ordem ao país”
Manifestações na Venezuela: total intolerância ao governo eleito. Guerra Civil?
Manifestações no Brasil: que rumo se quer?

Parece-me que toda energia e boa-vontade dos lutadores sociais está sendo usada como cavalo-de-troia para maquinações do Departamento de Estado dos E.U.A. Esta brecha surge primeiro por falta de poder real: movimentos pequenos são mais facilmente sobrepujados por ativistas violentos. Segundo, a estratégia destes movimentos parece ignorar e (desprezar) o poder formal. Há um grande sentimento de que há crise de representatividade, que as velhas estruturas do poder formal não mais representam a vontade das pessoas, que tudo isto é deixado meio de lado. E neste vácuo os aproveitadores já estão preparados para entrar  – o poder formal ainda funciona para muita coisa…

CONCLUSÃO(?)

O poder real precisa se organizar para superar as violências das diversas formas de poderes das minorias, mas sem desprezar o poder formal – antes que algum aventureiro o faça…

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