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O Sexto Mandato de Getúlio Vargas

Posted by Márcio Gonçalves em outubro 19, 2014

As ações não são como as modas, não são substituídas, elas são plantadas umas sobre as outras, servem de chão para as próximas. As coisas não ficam para trás ou são substituídas (…). Às vezes se acredita que as coisas ficam no passado e de repente sucede um fato que cria uma fissura e voltam a aflorar na superfície assuntos que se acreditavam estar desaparecidos.”

Silo, pensador argentino, numa palestra para ganhadores do Prêmio Nobel da Paz em 2009

Getúlio Vargas

Getúlio Vargas

O Brasil repete sua história nesta eleição de 2014.

Já em 2009, o jornalista Rodrigo Vianna dizia que as forças políticas dominantes antes da ditadura de 64 tinham reaparecido no Brasil contemporâneo, num brilhante post do seu blog Escrevinhador:

– O trabalhismo era a corrente política inaugurada por Getúlio Vargas, onde o foco do governo era assegurar e ampliar os direitos da massa trabalhadora. Na pré-ditadura, era encarnado pelo antigo PTB, no Brasil atual, o PT de Lula passou a seguir o mesmo caminho

– O fisiologismo era a política de resultados, com um caráter de centro. A grande maioria dos políticos era fisiológico: o importante é estar em algum governo e usufruir do poder. Sendo maioria, acabam sendo os fiéis da balança na composição de um governo no parlamento. Na pré-ditadura, este era o papel do antigo PSD; atualmente, o PMDB é o peso do qual nenhum governo consegue se livrar.

– o udenismo se pautava pelo discurso moralista de direita. Não tendo como atacar os atos de governo, se usava a acusação de corrupção. Esta era marca registrada da UDN de Carlos Lacerda. O PSDB e boa parte da oposição foram herdando este discurso até virarem o udenismo renascido. O discurso udenista era – e continua sendo – ecoado com virulência pelos meios de comunicação, que lhe servem de eco.

Ainda posso acrescentar a este cenário o papel das forças políticas de esquerda marxista, normalmente críticas ao governo trabalhista e, de certa forma, ajudando  a direita udenista.  O PCB tinha este papel, como tem até hoje, junto a outros partidos de esquerda como PSOL e PSTU. O PT já foi um partido com pretensões revolucionárias marxistas mas hoje tem as virtudes e os vícios do bom e velho trabalhismo brasileiro.

João Goulart no velório de Vargas

João Goulart no velório de Vargas

Hoje, tal como ontem.

1954: o udenismo faz acusações ao governo trabalhista de Vargas depois do atentado a Carlos Lacerda. Pressão total pela renúncia, boatos de golpe militar, até que Vargas, inesperadamente, se suicida e o povo se revolta contra a imprensa e a direita que fez a “Campanha do Mar de Lama”.

1964: o udenismo faz acusações de corrupção, demagogia, baderna e golpismo contra o governo trabalhista de João Goulart. É o ápice de uma orquestração coordenada pelo IPES desde 1962. Os militares dão um golpe de Estado, tomam o poder e não saem de lá por mais 21 anos.

2014: o udenismo, encarnado pelo PSDB, faz acusações de corrupção, clientelismo e golpismo contra os governos trabalhistas de Lula e Dilma, que está em campanha pela reeleição. Qual será o desfecho?

Carlos Lacerda acusando

Carlos Lacerda, o porta-voz do udenismo, acusando, acusando e acusando

As Forças Obscuras por trás do Udenismo

O udenismo, antigo e moderno, usa o discurso da corrupção para esconder suas verdadeiras intenções. O golpe de 64 tinha grande apoio do capital nacional e estrangeiro. Na preparação do golpe, a CIA financiou campanhas de deputados na eleição de 1962. Assim, quando o golpe aconteceu, os capitalistas nacionais e estrangeiros no Brasil passaram a controlar o governo e ter facilidades que não tinham com João Goulart. Vale observar que a deflagração do golpe contava até com apoio militar dos Estados Unidos se fosse necessário.

Hoje, o PSDB-UDN conta com apoio do capital financeiro internacional, que na Europa e Estados Unidos protege os bancos e cria desemprego em níveis brutais.

Além disso, várias empresas de petróleo americanas já tem “conversas reservadas” com o PSDB desde 2010 para que eles liberem as extensas reservas do pré-sal no regime de concessão de Fernando Henrique Cardoso, onde o Brasil pouco se beneficia e a vantagem é das empresas petrolíferas. Eles não gostam do regime de partilha aprovado no governo Lula, onde são obrigados a contratar serviços e produtos brasileiros, além de entregar parte do petróleo ao Brasil.

A mídia tem razões diretas para apoiar a candidatura de Aécio Neves. Com a internet, o mercado editorial está passando por uma diminuição, bem como a TV aberta. O dinheiro proveniente dos anúncios federais pode ajudar a enfrentar as dificuldades, como já acontece hoje em São paulo, onde o governo estadual compra abundantemente assinaturas das revistas Veja e dos jornais Folha e Estado de S. Paulo.

Para finalizar, os grupos de fanáticos anticomunistas que seguem o “monge do ódio” Olavo de Carvalho e o Clube Militar (saudosistas da ditadura) também apoiam o PSDB-UDN. A discriminação explícita de Silas Malafaia e de grupos de médicos raivosos também diz presente

Por que Sexto Mandato?

Conto como o primeiro mandato de Vargas o que ele recebeu por eleição direta em 1950. Apesar dos benefícios trabalhistas terem começado enquanto Vargas ainda era ditador, aquele período tem muita coisa negativa. O mandato direto de Vargas tem trabalhismo e nacionalismo sem mão-de-ferro. Prefiro contar daí.

O “segundo mandato” de Vargas é, com licença poética, o mandato de João Goulart. Além de ele ser ex-ministro de Vargas e do mesmo partido, seu governo também foi caracterizado por trabalhismo e nacionalismo.

O “terceiro mandato” de Vargas é, com mais licença poética ainda, o primeiro mandato de Lula. Teve até “campanha do mar de lama” rebatizada de “mensalão”. Agora é só continuar contando:

“quarto mandato” de Vargas = segundo mandato de Lula

“quinto mandato” de Vargas = primeiro mandato de Dilma

E, finalmente, chegamos à disputa que vai definir se haverá um “sexto mandato” para Vargas.

Do lado de Dilma, o nacionalismo, o desenvolvimentismo, a inclusão social. Programas sociais, educacionais. A proteção dos salários, a valorização real do salário mínimo. O uso estratégico do pré-sal como indutor da economia.

Do lado de Aécio, capital financeiro, petrolíferas americanas, cinco famílias que comandam mídia influente no Brasil, fanáticos de extrema-direita. Gente que vai continuar sem o controle do Estado se Dilma ganhar.

O que o Brasil vai decidir? O que você decide?

Dilma no segundo enterro de João Goulart, ao lado da viúva Maria Tereza

Dilma no segundo enterro de João Goulart, ao lado da viúva Maria Tereza

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