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O Ódio Visto como Ferramenta Política

Posted by Márcio Gonçalves em janeiro 19, 2016

Nos últimos anos temos visto o discurso do ódio crescer no Brasil. Ódio contra homossexuais, nordestinos, negros, mulheres, haitianos, petistas e esquerdistas em geral.

Isto na verdade ajuda no cumprimento de uma agenda política. É necessário criar um “inimigo”,  uma classe desprezível para que algumas porções da sociedade sigam uma agenda conservadora.

Sejamos sinceros. O exercício da solidariedade, de nos vermos como semelhantes é uma prática que a esmagadora maioria de nós ainda não incorporou como hábito. Mas chegar a odiar já é outra coisa. Normalmente se odeia alguém que causou grande sofrimento ou dor a você ou um ente querido seu. Odiar genericamente um grupo é algo que normalmente acontece quando existe propaganda neste sentido e liderança que reforce esta propaganda. Supostamente vivemos sob Estados modernos em que todos estão sob o mesmo manto protetor. O truque dos apóstolos do ódio é explorar as diferenças, dividir em o mundo em “nós” e “eles” e  apelar aos nossos velhos instintos tribais de conflito. Pronto, tá armado o circo de horrores. O negócio sempre funciona melhor quando o “inimigo” não é analisado, mas estereotipado, tipo vilão de filme mesmo. O negócio só cola quando vem com muita mentira e exagero. Claro, se alguém parar para analisar o “inimigo”, vai ver que existe muito mais complexidade no outro: razões históricas para fazer o que faz, estruturas de poder econômico que nada fazem para mudar uma situação que prejudica milhões, etc., etc, etc. Mas pra que pensar tanto? É mais fácil botar a culpa de tudo num “inimigo” só…

Afinal, o que querem os grupos de ódio? É simples. Insultar, difamar, acusar, discriminar, separar, linchar, exterminar, etc. Tem uns 50 tons de ódio para todos os gostos.

A quem serve este ódio? Geralmente a um grupo dominante, opressor,  que quer manter seu poder manipulando grandes grupos para, através do ódio, atenderem sua agenda. Mais detalhes a seguir.

Exemplo ultraconhecido de grupos do ódio

auschwitz

extremo do ódio: genocídio em campo de concentração

A Segunda Guerra Mundial traz o exemplo mais célebre de cultura do ódio: o extermínio de judeus pelos nazistas. Os nazistas retratavam os judeus como monstros inumanos que queriam acabar com a Alemanha e dominar todo o mundo. Daí , passaram a exterminar judeus; não só judeus alemães, mas poloneses, franceses, etc

 

(Menos conhecido é o fato que os campos de concentração nazistas também exterminaram ciganos, homossexuais e deficientes físicos, motivados pelos ideais de uma “genética pura”)

O massacre nos campos de concentração é um dos exemplos mais extremos, pelo genocídio perpetrado. Mas nem de longe é o único. Mesmo sem chegar a assassinato em massa, o ódio consegue fazer muito estrago.

“Aquele imigrante tá roubando seu emprego!”

Na Europa, já nos anos 90, os partidos de extrema direita começaram a afirmar que os imigrantes africanos, turcos e árabes roubavam o emprego dos europeus, daí o a crise de desemprego naquele momento. O discurso não se sustentava porque estes imigrantes só pegavam os empregos que os europeus, com elevado nível de formação universitária, não queriam pegar. Mas mesmo assim deu pra encher o cofrinho eleitoral de Jean-Marie Le Pen na França. Hoje o papo contra imigrantes continua, mas a justificativa do ódio é dizer que tem terroristas infiltrados nas levas de imigrantes que fogem de guerra civil na Síria.

“Bandido bom é bandido morto!”

Aqui no nosso querido Brasil, já temos tradição de uns 50 anos de programas de rádio e TV em que bandido é esculachado. É bom ver este caso de perto porque o conhecemos bem. A falácia do discurso de ódio antibandido é que se pega os casos em que os bandidos  praticam crueldade e apresentam desprezo pela vida humana e se generalizam algumas coisas pela repetição de discurso e de imagens:

  • todo bandido é tão cruel quanto os piores
  • a solução pra todos eles é a mesma: matar
  • todo bandido é pobre e negro (até o portal G1 da Globo, quando se refere a crimes cometidos por pessoas de classe média,  não usa a expressão “bandidos” para eles)

Há muita cobertura em casos de assalto, homicídios e tiroteios com traficantes. Mas não há nenhuma matéria tentando descobrir a rota das drogas e das armas que abastecem o crime organizado que tornam infernal a vida nas cidades grandes. Os bandidos por trás do tráfico internacional de drogas e armas não são expostos…

O perigo islâmico (ou “todo muçulmano é terrorista!”)

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“terrorista islâmico”

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“terrorista cristão”?

Anders Breivik matou 77 noruegueses  em 2011. Num manifesto em que “justificava” seu ato, afirmou estar defendendo a Cristandade. Mas nenhum jornal o  chamou de “terrorista cristão”. Qualquer muçulmano terrorista, todavia, será identificado como “terrorista muçulmano” e, meio que por tabela, qualquer muçulmano tem boa chance de ser identificado como terrorista nos dias de hoje, mesmo que não seja. Subliminarmente, associa-se a religião muçulmana ao terrorismo. Nem todo muçulmano quer travar uma “guerra santa” (jihad) contra o Ocidente. Mas a ideia de que todo muçulmano é jihadista ajuda muito aos objetivos de Estados Unidos e Israel no Oriente Médio…

“Povo vagabundo que vive de bolsa do governo!”

O programa bolsa-família diminuiu mortalidade infantil, incrementou nível de escolaridade de muitas crianças, foi elogiado e recomendado pela ONU. O melhor seria que não precisasse existir, mas desempenha papel importante no Brasil desigual em que vivemos. Acredito que programas assistenciais precisam de um critério para saída do benefício e melhor mesmo é um Estado de bem-estar social com Educação e Saúde Públicas de qualidade, mas por enquanto tá valendo.

Estranho é que boa parte dos detratores do bolsa-família e correlatos não têm consciência de que o governo gasta muito mais com ricos do que com pobres . Pode-se dizer que há um “bolsa-banqueiro” que são os juros da dívida pública, que consomem em média 40% do orçamento federal todo santo ano. mas você não vai ver memes no facebook falando dos “banqueiros vagabundos que ganham dinheiro do governo sem fazer nada”…

“Petista é tudo ladrão!”

charge moro

A mídia antipetista (Globo, Veja, Folha e Estadão) e a operação lava-jato fazem bastante força para caracterizar o Partido dos Trabalhadores como uma organização criminosa. O PT não combateu a promiscuidade entre o capital e o poder público. Pelo contrário, participou disto e além do velho toma-lá-dá-cá com empresários (obras e contratos em troca de financiamentos de campanha), há indícios de roubo pessoal. Às vezes fica difícil dizer tudo que acontece, por que as delações da lava-jato são um disse-me-disse sem provas antes de tudo

Mas que todos que roubaram sejam punidos. Que as leis para roubo de dinheiro público (desvio é eufemismo) sejam ainda mais rigorosas no sentido de recuperar o dinheiro e aplicá-lo no interesse público. Mas o que fica patético na lava-jato é a tentativa descarada de jogar para debaixo do tapete todas as mesmas práticas cometidas pelos outros partidos e pela oposição. Ainda mais patético é a tentativa de caracterizar a corrupção no PT como um “projeto de poder”. Pra mim, este “projeto” é descendente direto do preconceito que “comunistas comem criancinhas” e todos os esquerdistas do mundo são maquiavélicos amorais prontos a cometer atos de violência e traição a qualquer instante. É o mito do “perigo vermelho”, tão eficientemente propagado por Hollywood na Guerra Fria, agora na versão brazuca. Também a continuação do discurso de ódio anti-Vargas, que campeou aqui nos anos 50.

O truque é simples. Não basta o PT ter cometido delitos. É preciso escandalizar, estigmatizar, gerar ódio, para que políticas que atendam à maioria sejam estigmatizadas junto. Assim a oposição não precisa nem ter projeto. Ser antipetista já é suficiente para se votar neles…

O opressor se fazendo de oprimido

Normalmente o discurso do ódio dá mais fôlego para o opressor continuar oprimindo. Mas ultimamente o truque é o opressor se fazer de oprimido por grupos minoritários e usar esta suposta opressão para estigmatizar.

É daí que vem  o discurso de que que cotas raciais em universidades são racismo, mulheres que têm posições feministas são “feminazis” e os movimentos gays querem impor uma hegemonia “gayzista”.

Um caso de fim de estereótipo de ódio e preconceito

Fu_Manchu

Dr. Fu Manchu, o “oriental maléfico”

O homem branco ocidental, a partir do domínio centenário de Inglatera e Estados Unidos impõe-se como o padrão de “normalidade”. A cultura popular ocidental forneceu vários estereótipos étnicos não-ocidentais que serviam de reforço à cultura do ódio e do preconceito. Um deles eram os asiáticos maléficos: sombrios, traiçoeiros, dados a usar venenos e poções mágicas. Tem vários: Fu Manchu, Imperador Ming (de Flash Gordon), Mandarim (do Homem de Ferro).

Na ascensão econômica do Japão nos anos 80, pintaram alguns filmes em Hollywood em que se não havia o asiático maléfico, sempre tinha algum desconforto ligado a empresários japoneses (até Yakuza, se fosse necessário). Ultimamente não se tem visto mais asiáticos maléficos na cultura mundial. A China, principal potência asiática do momento, investe bastante em Hollywood para vetar qualquer estereótipo…

O ódio do oprimido

Bem, neste momento no mundo só estão felizes os banqueiros e a indústria de armas. O resto tá se virando pra viver e meio assustado com tudo. Acho que nós, que somos 99% da humanidade, só temos que tomar cuidado para não criar um cultura do ódio contra o 1% que retém a maior parte da renda mundial. Pra derrotá-los vamos ter que usar a cabeça e não o fígado…

 

 

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