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Archive for the ‘política’ Category

Quatro Anos de Turbulência

Posted by Márcio Gonçalves em agosto 6, 2017

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2 de agosto de 2017. Neste dia, o Brasil viu a câmara dos deputados livrar o ocupante da cadeira presidencial de investigação criminal. Isto foi feito a despeito da opinião majoritária de que Michel Temer deveria ser investigado pelos crimes implícitos nas gravações que vazaram dois meses antes, onde um diálogo com Wesley Batista apontava indícios de favorecimento à custa de entrega de malas de dinheiro e compra de silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha. Curiosamente, para se manter livre, Temer também comprou cumplicidade de deputados federais com liberação de verbas de emendas parlamentares, que aumentaram ainda mais o déficit do orçamento federal.

Algumas semanas antes, em 11 de julho de 2017, um senado federal pleno de membros acusados de corrupção retirou toda a proteção aos trabalhadores através da desfiguração da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), no que está sendo chamado eufemisticamente de “reforma trabalhista”. Agora o Brasil se tornou uma fazenda de mão-de-obra barata, disponível por qualquer salário, de qualquer jeito. O trabalhador fica com menos renda, de modo que também sairão perdendo os empresários cuja clientela majoritária seja de assalariados. O modelo só é bom para empresas que trabalham 100% para exportação; ou, ainda, para o setor financeiro, que tem capital suficiente para investimentos mundo afora, independente dos seus correntistas. Em breve devem surgir no Brasil fábricas com jornadas de 10 a 12 horas de trabalho por dia, seis dias por semana, com produção destinada prioritariamente para o mercado externo.

Em dezembro de 2016 o Brasil já havia se tornado o país que abdicava de investir em saúde e educação por 20 anos. O orçamento federal teve gastos congelados por duas décadas através da “PEC da morte” (oficialmente PEC do teto de gastos). Isto fará com que a educação e a saúde públicas tenham menos dinheiro para a população que vai crescer. Mas, por outro lado, sempre haverá dinheiro da taxa Selic para garantir uma polpuda remuneração de títulos da dívida pública para os bancos. Também se quer dificultar a aposentadoria da previdência social pública, o que estimulará a previdência privada, serviço mantido em grande parte por bancos. Os bancos são a ponta mais visível do capital financeiro, o poder hegemônico da atualidade. Há outros setores do capital que estão ganhando no Brasil pós-impeachment, mas somente o capital financeiro foi capaz de fazer o Supremo Tribunal Federal prestar-se ao papel de se submeter às vontades de Renan Calheiros para ter a certeza da aprovação da PEC da morte.

E qual a reação das camadas atingidas por este cenário tão anti-humanista? Tentaram-se duas greves gerais em abril e junho de 2017, a primeira foi mais bem-sucedida que a segunda; a repressão foi violentíssima em Brasília. Mas não há um grande movimento nacional de repúdio às violências que surgem. Bem diferente de junho de 2013, onde uma grande onda tomou as ruas. Inicialmente, as “jornadas de junho” começaram contra o aumento de preço das passagens de ônibus em algumas cidades. Num momento de desemprego baixo, média salarial alta e passagens subsidiadas por vale-transporte para os trabalhadores mais humildes, idosos e estudantes, a reivindicação poderia ser vista como secundária. Talvez por isso o leque de reivindicações foi aumentando. As redes sociais foram fundamentais para este aumento. Alguns vídeos da época, gravados nos Estados Unidos, viralizaram. Os vídeos discutiam a pertinência de o Brasil gastar dinheiro público em eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas. Estava justamente ocorrendo a Copa das Confederações, evento-teste da FIFA, e o terreno era fértil para esta reivindicação. Outro fator que alimentou o crescimento das “jornadas de junho” foi a violência desproporcional da repressão às manifestações por parte da Polícia Militar de São Paulo (onde não ocorriam jogos da Copa das Confederações), chegando a cegar o olho de um fotógrafo com bala de borracha. Um tanto implicitamente, se fazia crítica do governo de centro-esquerda petista, pelas concessões que fazia ao capital. Grandes eventos são bons para empreiteiras, aumento de passagens são bons para os plutocratas do setor de transporte, acordos com as raposas fisiológicas de centro-direita geram abandono de algumas lutas históricas. Estes são reais problemas que a esquerda já levantou historicamente no Brasil contra os governos de centro-esquerda (trabalhistas) de Getúlio Vargas, João Goulart e os governos petistas. Mas esta crítica esquece que o Brasil é um país tão carente de inclusão social, com um cotidiano tão árduo para a maioria das pessoas, que qualquer política pública que diminua esta dor será lembrada com saudade por estes brasileiros. Por isto este governos são lembrados. Por isso o povo pedia a volta do ex-ditador Vargas em 1950. Por isso a aprovação de João Goulart era alta quando ele foi derrubado pelo golpe de 64. Por isso pesquisa do jornal Valor Econômico em fevereiro de 2017 indica uma “saudade de Lula” em alguns eleitores de baixa renda. Enquanto a crítica das semelhanças da centro-esquerda com a direita deve ser feita, as diferença que as pessoas sentem na prática podem ser usadas como ponto de partida para políticas públicas num programa de governo mais à esquerda.

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#ForaTemer: Desobediência Civil

Posted by Márcio Gonçalves em maio 16, 2016

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“Não há salvação: Michel Temer é um usurpador e seu governo não deve ser obedecido.”

Wanderley Guilherme dos Santos, no blog segunda opinião

Quem sou eu pra discordar do Wanderley… Em fevereiro de 1962, quando tinha apenas 26 anos, publicou um artigo entitulado “Quem dará o Golpe no Brasil”, antecipando o que viria a acontecer dois anos mais tarde. É um cientista político que realmente enxerga longe .

Levamos um golpe. É o caso, então, de começar a implementar a desobediência civil para executar um contragolpe. Botar o “Fora Temer” em prática.

Vejo a população dividida em três grupos. Julgo essencial avaliar os grupos para entender como o contragolpe pode ser dado.

Os três grupos

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A figura acima sintetiza  a situação atual. Grupos de interesses convergentes usurparam o poder fingindo que fizeram um processo normal no legislativo. Inventaram o impeachment sem crime de responsabilidade para executar um golpe parlamentar.

A população está dividida em três grupos. O grupo 1, que apoia o golpe: pessoas com convicções de direita e extrema-direita e lobotomizados pela campanha antipetista da mídia. O grupo 2, que é contra o golpe: basicamente a esquerda e sua militância, mas também democratas convictos não necessariamente de esquerda. E o grupo 3, que não tem postura ativa de apoio ou rechaço ao golpe. É composto da grande maioria silenciosa de pessoas que sempre se viu longe demais do poder para ter qualquer influência, que vai levando a vida do jeito que der. Mas também é composto daqueles que, mesmo tendo uma postura crítica aos governos Lula/Dilma ficou assustado com o rumo que a coisa tomou, com o carnaval macabro de políticos corruptos que assaltou o poder. Ainda tem aquelas pessoas que não estão muito interessadas no assunto, não têm opinião formada, etc.

Creio que o grupo 3 é maioria. A adesão ou não-adesão deste grupo define o sucesso ou o fracasso do contragolpe. Foi assim também em 64. A divisão da população era, grosso modo, a mesma mostrada acima. A esquerda partiu pro tudo ou nada da guerrilha sem o apoio do “grupo 3” da época. Perdeu feio.

Os ditadores de 64 sabiam que tinham que agradar o “grupo 3” de alguma forma e, com prosperidade baseada em dinheiro emprestado, criaram o “milagre brasileiro”. A sensação de bem-estar era tanta que o apoio ao ditador Médici era massivo. Depois veio a crise do petróleo, o estouro dos juros e acabou a festa. Acabou o apoio popular à ditadura de 64.

Os usurpadores de agora não querem agradar em nada o grupo 3. Só querem entregar nosso suor e nossas riquezas naturais pros Estados Unidos, enchendo a burra de dinheiro com isso. E vão justificar tudo dizendo que “estamos pagando a conta que o PT deixou”. Eu acho que isso só vai colar pro grupo 1. O grupo 3, entre calejado e cético, não vai engolir isso muito tempo. É aí que pode ser feita uma primeira ação.

Greve Geral

No dia em que forem votar o fim da CLT no Congresso, convém fazer uma greve geral. Eu sei que não é fácil, mas agora estou dando as ideias que acho apropriado para cada momento. Acredito também que o grupo 3 vai facilmente entender o quanto vai ser tirado dele. E como isso não tem absolutamente nada a ver com “herança maldita” do PT.

Acredito que os usurpadores já estão preparados para reprimir com violência algumas manifestações. Mas outras ideias podem ser postas em prática, que não facilitam a repressão do poder. É a desobediência civil.

Alguns exemplos:

Boicote à Globo

A Globo ainda é o centro do golpe. Boicotá-la é revidar e diminuir sua influência. Já estou num estágio que não vejo Globo, mas no dia que houver uma adesão de parte significativa do grupo 3, não tem novela que segure.

Capitalista sente mesmo é falta de dinheiro no bolso, então um outro bom boicote relacionado à Globo é boicotar seus principais anunciantes. Os anunciantes do jornalismo (se é que se pode chamar assim) e do futebol. Imagino que é o tipo de campanha que pode crescer via redes sociais, mas pode ter problema com alguns hábitos de consumo que alguns podem ter dificuldade de largar.

Muitas vezes as pessoas consideram que trabalho é uma obrigação sem prazer nenhum, enquanto o consumo é o ato em que elas fazem o que gostam. Este também é um empecilho para a próxima ideia de boicote.

Boicote aos shoppings

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Greve é bom, mas “greve de consumidores” também pode ser legal. Já imaginou o shopping vazio num domingo em protesto contra os usurpadores? Em protesto contra os preços altos? A simbologia das pessoas recusando a se dirigir ao “templo do consumismo” é forte. Mas deve ser o boicote mais difícil de fazer. As pessoas são seduzidas pelos shoppings, sem contar que muita gente do “grupo 1” não vai aderir. Shoppings em áreas mais populares talvez ficassem mais vazios com o boicote. Pensa só num Shoping tipo o Norte Shopping do Rio, às moscas…

Boicote a Eventos Oficiais

Boa parte da autoridade que um governo tem é oriundo da concordância que as pessoas têm em segui-lo. Negar a autoridade dos usurpadores não implica confrontar fisicamente, mas não reconhecer sua autoridade, negá-la, ignorar solenidades, dar as coisas, vaiar, etc. Seguindo esta ideia,, chegamos no…

Boicote às Olimpíadas

Uma vez que as Olimpíadas do Rio vão ser usadas pelos usurpadores para projetar uma imagem boa sua, nada melhor do que ignorá-las olimpicamente e aproveitar todas as oportunidades pra denunciar os golpistas

Boicote ao Imposto de Renda

Se os usurpadores ainda estiverem ocupando indevidamente o poder executivo no ano que vem, podemos nos negar a pagar o Imposto de Renda até que venha um governo eleito, quando pagaríamos todos os atrasados. Também podíamos acrescentar a exigência de prisão do Cunha…

Botando a bola em campo

Bem, este foi mais um brainstorm para jogar várias ações que possibilitem o contragolpe, a queda dos usurpadores e, desejosamente, novas eleições presidenciais. Iagino que os que leiam tenham outras ideias e que do debate algo novo possa ser posto em prática.

É hora do #contragolpe

#ForaTemer

#cunhanacadeia

 

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Contragolpe

Posted by Márcio Gonçalves em abril 18, 2016

contragolpe

18 de abril de 2016, 01:06

O golpe de Estado acabou de acontecer. O impeachment da Dilma foi aprovado. 367 X 137, com 7 abstenções e duas ausências.

É um momento de tristeza. Uma derrota como essa não é fácil. Um minuto para as lágrimas e lamber as feridas.

Já chorou? Já lambeu as feridas? Então se ajeita que temos muita luta pela frente.

Primeira coisa, o governo Temer é ilegítimo. É fruto das negociações da pior promiscuidade entre o Capital e o Poder Legislativo, conduzidas por um gângster (Eduardo Cunha) contra quem há provas cabais de corrupção e um processo que misteriosamente não avança no Supremo Tribunal Federal. Parece que a essência do governo Temer é a seguinte: fazer tudo que o Poder Econômico quiser, para se livrar das acusações de corrupção. Para satisfazer o poder econômico nacional, “flexibilizar” os direitos trabalhistas. Ou seja, subemprego e precarização das condições de trabalho. Para saciar o capital internacional, privatizar a Petrobrás, permitir a entrega de porções cada vez maiores do pré-sal para estrangeiros. E tornar de uma vez por todas o Brasil, economicamente, uma colônia dos Estados Unidos. Em resumo, o governo ilegítimo do usurpador Temer  tem um programa antiBrasil e antibrasileiros.

Não encontraram crime de responsabilidade contra Dilma, mas vão tentar convencer todo mundo que este é o governo mais legítimo do mundo e vai tomar as medidas necessárias para “acabar com a crise”. A ficção será  patrocinada pelo consórcio que apoia o golpe: mídia, judiciário, polícia federal, ministério público. A “corrupção” vai sumindo do noticiário aos pouquinhos, até que aqueles que foram para rua protestar contra ela se vejam sem ninguém convocando para manifestações “Fora Cunha”. Na verdade, a ficção é a mesma de antes, que muitos acreditaram. Sabe aquela lava-jato que só pegava PT, aquele procurador-geral que alivia pro Aécio toda hora?  É a mesma história da carochinha, só mudou de capítulo.

Por essas e outras, precisamos de uma resposta ao golpe. O contragolpe.

Pra começar, não paremos de falar que o governo foi usurpado e nossos votos foram cassados.

O “Fora Cunha” é imprescindível. Pressionar STF, e justiça para ver se eles vão parar de enrolar.

Precisamos boicotar os produtos que anunciam os principais programas da Globo.

E precisamos de muitas manifestações  contra o governo e uma greve geral. Uma greve geral das boas. De preferência, por tempo indeterminado. Minha vontade era parar tudo até o Temer renunciar, porque, pra começar, ele não devia nem estar lá.

Claro que isso não se consegue num estalar de dedos, mas vamos trocar ideias para realizar o contragolpe.

#foratemer

#cunhanacadeia

#boicoteàglobo

#grevegeralatéotemercair

#contragolpe

 

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Notas de uma noite tumultuada

Posted by Márcio Gonçalves em março 17, 2016

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17/03/2016, 00:42

Existem fatos jurídicos.

E fatos políticos.

A nomeação de Lula é um fato político, que tem um problema pelo fato de Lula ser investigado. Poderia ser vista apenas como tentativa de fuga da instância a que está submetido e busca do foro privilegiado. No meu entendimento, a nomeação também serve para isto (por isto eu não gostava muito da ideia). A gravação de Moro indica que os dois, Dilma e Lula podem estar preocupados com a possível prisão de Lula e arrumando recursos para evitar esta prisão.

No meu ponto de vista, isto pode ser questionado juridicamente. Bem como a validade dos grampos também.

E, com relação à prisão, alguém tem dúvida de que Moro quer prender Lula? Que quase fez isto em na sexta-feira 04/03/16? Que sofreu um “coito interrompido” quando o avião não saiu de Congonhas em direção a Curitiba? Que passou aperto quando teve que explicar o porquê da condução coercitiva de alguém que não tinha sido intimado a depor? (Além de Moro, três patéticos procuradores do Ministério Público de SP, não só queriam prender Lula, como queriam escolher a data, fazendo um pedido de prisão que parecia retirado da página do Revoltados Online). E existem provas de crime para prender o investigado Lula? Parece que não. Existem indícios. Que tudo seja investigado até o fim.

Mas, cá entre nós, alguém acha que já não investigaram tudo dele? Um suposto “chefe de quadrilha” do qual só conseguem achar um triplex que não é dele? E um sítio, que tem sim indícios de favorecimentos, como reformas supostamente bancadas por empreiteiras – mas só indícios. Não acharam nada melhor que isto? Um laranja, uma conta na Suíça (como Eduardo Cunha), dinheiro desviado em paraíso fiscal (como Aécio Neves e José Serra). Bom, esse tal de Lula deve ser muito bom em esconder…

Já se falou em vício de origem na nomeação de Lula, então que seja questionado nos canais competentes – e que ele possa se defender, bem como Dilma. Neste mérito, se precaver contra possíveis pedidos celerados de prisão, depois de consumada a decisão de Lula entrar no ministério, é humanamente compreensível. Se quisessem fugir atabalhoadamente, a nomeação teria saído a toque de caixa semana passada.

Mas…

Existem fatos jurídicos.

E fatos políticos.

Outro fato político relevante é um juiz de primeira instância não ter pudores em revelar para um conglomerado de mídia uma gravação que envolve a presidenta da República (e de forma quase instantânea, no mesmo dia que o grampo foi feito, já fora do horário permitido!). Fato político relevante é a parceria fechada entre setores do judiciário, setores da Polícia Federal e os grandes meios de comunicação. Fato político relevante é a escandalização extrema de grampos telefônicos (com conteúdo que deve sim, ser esclarecido e investigado) para insuflar mais uma vez a parte da população para a qual o PT já é culpado de tudo, além de insuflar a oposição a tentar o impeachment. Fato político é a instrumentalização da justiça e da mídia para dominar politicamente um país, usando o combate à corrupção como justificativa esfarrapada na campanha de difamação não só de um partido, mas de um campo político, popular, nacionalista, desenvolvimentista.

Sim. Hoje a narrativa midiática-policial-jurídica é petista=corrupto (e nem interessa que o partido com mias políticos na Lavajato seja o PP, de onde acabou de sair Jair Bolsonaro…). Em breve, a narrativa deve passar a ser esquerdista=bandido, que se soma àquela que diz que “bandido bom=bandido morto”…

Fato político é usar o poder policial, judicial e midiático para acirrar de vez os ânimos e chegarmos à confrontos físicos entre facções.

A exploração política dos fatos jurídicos pode levar o Brasil a conflitos que nunca tivemos. Aguardemos os próximos dias. Não estou otimista

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O Ódio Visto como Ferramenta Política

Posted by Márcio Gonçalves em janeiro 19, 2016

Nos últimos anos temos visto o discurso do ódio crescer no Brasil. Ódio contra homossexuais, nordestinos, negros, mulheres, haitianos, petistas e esquerdistas em geral.

Isto na verdade ajuda no cumprimento de uma agenda política. É necessário criar um “inimigo”,  uma classe desprezível para que algumas porções da sociedade sigam uma agenda conservadora.

Sejamos sinceros. O exercício da solidariedade, de nos vermos como semelhantes é uma prática que a esmagadora maioria de nós ainda não incorporou como hábito. Mas chegar a odiar já é outra coisa. Normalmente se odeia alguém que causou grande sofrimento ou dor a você ou um ente querido seu. Odiar genericamente um grupo é algo que normalmente acontece quando existe propaganda neste sentido e liderança que reforce esta propaganda. Supostamente vivemos sob Estados modernos em que todos estão sob o mesmo manto protetor. O truque dos apóstolos do ódio é explorar as diferenças, dividir em o mundo em “nós” e “eles” e  apelar aos nossos velhos instintos tribais de conflito. Pronto, tá armado o circo de horrores. O negócio sempre funciona melhor quando o “inimigo” não é analisado, mas estereotipado, tipo vilão de filme mesmo. O negócio só cola quando vem com muita mentira e exagero. Claro, se alguém parar para analisar o “inimigo”, vai ver que existe muito mais complexidade no outro: razões históricas para fazer o que faz, estruturas de poder econômico que nada fazem para mudar uma situação que prejudica milhões, etc., etc, etc. Mas pra que pensar tanto? É mais fácil botar a culpa de tudo num “inimigo” só…

Afinal, o que querem os grupos de ódio? É simples. Insultar, difamar, acusar, discriminar, separar, linchar, exterminar, etc. Tem uns 50 tons de ódio para todos os gostos.

A quem serve este ódio? Geralmente a um grupo dominante, opressor,  que quer manter seu poder manipulando grandes grupos para, através do ódio, atenderem sua agenda. Mais detalhes a seguir.

Exemplo ultraconhecido de grupos do ódio

auschwitz

extremo do ódio: genocídio em campo de concentração

A Segunda Guerra Mundial traz o exemplo mais célebre de cultura do ódio: o extermínio de judeus pelos nazistas. Os nazistas retratavam os judeus como monstros inumanos que queriam acabar com a Alemanha e dominar todo o mundo. Daí , passaram a exterminar judeus; não só judeus alemães, mas poloneses, franceses, etc

 

(Menos conhecido é o fato que os campos de concentração nazistas também exterminaram ciganos, homossexuais e deficientes físicos, motivados pelos ideais de uma “genética pura”)

O massacre nos campos de concentração é um dos exemplos mais extremos, pelo genocídio perpetrado. Mas nem de longe é o único. Mesmo sem chegar a assassinato em massa, o ódio consegue fazer muito estrago.

“Aquele imigrante tá roubando seu emprego!”

Na Europa, já nos anos 90, os partidos de extrema direita começaram a afirmar que os imigrantes africanos, turcos e árabes roubavam o emprego dos europeus, daí o a crise de desemprego naquele momento. O discurso não se sustentava porque estes imigrantes só pegavam os empregos que os europeus, com elevado nível de formação universitária, não queriam pegar. Mas mesmo assim deu pra encher o cofrinho eleitoral de Jean-Marie Le Pen na França. Hoje o papo contra imigrantes continua, mas a justificativa do ódio é dizer que tem terroristas infiltrados nas levas de imigrantes que fogem de guerra civil na Síria.

“Bandido bom é bandido morto!”

Aqui no nosso querido Brasil, já temos tradição de uns 50 anos de programas de rádio e TV em que bandido é esculachado. É bom ver este caso de perto porque o conhecemos bem. A falácia do discurso de ódio antibandido é que se pega os casos em que os bandidos  praticam crueldade e apresentam desprezo pela vida humana e se generalizam algumas coisas pela repetição de discurso e de imagens:

  • todo bandido é tão cruel quanto os piores
  • a solução pra todos eles é a mesma: matar
  • todo bandido é pobre e negro (até o portal G1 da Globo, quando se refere a crimes cometidos por pessoas de classe média,  não usa a expressão “bandidos” para eles)

Há muita cobertura em casos de assalto, homicídios e tiroteios com traficantes. Mas não há nenhuma matéria tentando descobrir a rota das drogas e das armas que abastecem o crime organizado que tornam infernal a vida nas cidades grandes. Os bandidos por trás do tráfico internacional de drogas e armas não são expostos…

O perigo islâmico (ou “todo muçulmano é terrorista!”)

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“terrorista islâmico”

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“terrorista cristão”?

Anders Breivik matou 77 noruegueses  em 2011. Num manifesto em que “justificava” seu ato, afirmou estar defendendo a Cristandade. Mas nenhum jornal o  chamou de “terrorista cristão”. Qualquer muçulmano terrorista, todavia, será identificado como “terrorista muçulmano” e, meio que por tabela, qualquer muçulmano tem boa chance de ser identificado como terrorista nos dias de hoje, mesmo que não seja. Subliminarmente, associa-se a religião muçulmana ao terrorismo. Nem todo muçulmano quer travar uma “guerra santa” (jihad) contra o Ocidente. Mas a ideia de que todo muçulmano é jihadista ajuda muito aos objetivos de Estados Unidos e Israel no Oriente Médio…

“Povo vagabundo que vive de bolsa do governo!”

O programa bolsa-família diminuiu mortalidade infantil, incrementou nível de escolaridade de muitas crianças, foi elogiado e recomendado pela ONU. O melhor seria que não precisasse existir, mas desempenha papel importante no Brasil desigual em que vivemos. Acredito que programas assistenciais precisam de um critério para saída do benefício e melhor mesmo é um Estado de bem-estar social com Educação e Saúde Públicas de qualidade, mas por enquanto tá valendo.

Estranho é que boa parte dos detratores do bolsa-família e correlatos não têm consciência de que o governo gasta muito mais com ricos do que com pobres . Pode-se dizer que há um “bolsa-banqueiro” que são os juros da dívida pública, que consomem em média 40% do orçamento federal todo santo ano. mas você não vai ver memes no facebook falando dos “banqueiros vagabundos que ganham dinheiro do governo sem fazer nada”…

“Petista é tudo ladrão!”

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A mídia antipetista (Globo, Veja, Folha e Estadão) e a operação lava-jato fazem bastante força para caracterizar o Partido dos Trabalhadores como uma organização criminosa. O PT não combateu a promiscuidade entre o capital e o poder público. Pelo contrário, participou disto e além do velho toma-lá-dá-cá com empresários (obras e contratos em troca de financiamentos de campanha), há indícios de roubo pessoal. Às vezes fica difícil dizer tudo que acontece, por que as delações da lava-jato são um disse-me-disse sem provas antes de tudo

Mas que todos que roubaram sejam punidos. Que as leis para roubo de dinheiro público (desvio é eufemismo) sejam ainda mais rigorosas no sentido de recuperar o dinheiro e aplicá-lo no interesse público. Mas o que fica patético na lava-jato é a tentativa descarada de jogar para debaixo do tapete todas as mesmas práticas cometidas pelos outros partidos e pela oposição. Ainda mais patético é a tentativa de caracterizar a corrupção no PT como um “projeto de poder”. Pra mim, este “projeto” é descendente direto do preconceito que “comunistas comem criancinhas” e todos os esquerdistas do mundo são maquiavélicos amorais prontos a cometer atos de violência e traição a qualquer instante. É o mito do “perigo vermelho”, tão eficientemente propagado por Hollywood na Guerra Fria, agora na versão brazuca. Também a continuação do discurso de ódio anti-Vargas, que campeou aqui nos anos 50.

O truque é simples. Não basta o PT ter cometido delitos. É preciso escandalizar, estigmatizar, gerar ódio, para que políticas que atendam à maioria sejam estigmatizadas junto. Assim a oposição não precisa nem ter projeto. Ser antipetista já é suficiente para se votar neles…

O opressor se fazendo de oprimido

Normalmente o discurso do ódio dá mais fôlego para o opressor continuar oprimindo. Mas ultimamente o truque é o opressor se fazer de oprimido por grupos minoritários e usar esta suposta opressão para estigmatizar.

É daí que vem  o discurso de que que cotas raciais em universidades são racismo, mulheres que têm posições feministas são “feminazis” e os movimentos gays querem impor uma hegemonia “gayzista”.

Um caso de fim de estereótipo de ódio e preconceito

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Dr. Fu Manchu, o “oriental maléfico”

O homem branco ocidental, a partir do domínio centenário de Inglatera e Estados Unidos impõe-se como o padrão de “normalidade”. A cultura popular ocidental forneceu vários estereótipos étnicos não-ocidentais que serviam de reforço à cultura do ódio e do preconceito. Um deles eram os asiáticos maléficos: sombrios, traiçoeiros, dados a usar venenos e poções mágicas. Tem vários: Fu Manchu, Imperador Ming (de Flash Gordon), Mandarim (do Homem de Ferro).

Na ascensão econômica do Japão nos anos 80, pintaram alguns filmes em Hollywood em que se não havia o asiático maléfico, sempre tinha algum desconforto ligado a empresários japoneses (até Yakuza, se fosse necessário). Ultimamente não se tem visto mais asiáticos maléficos na cultura mundial. A China, principal potência asiática do momento, investe bastante em Hollywood para vetar qualquer estereótipo…

O ódio do oprimido

Bem, neste momento no mundo só estão felizes os banqueiros e a indústria de armas. O resto tá se virando pra viver e meio assustado com tudo. Acho que nós, que somos 99% da humanidade, só temos que tomar cuidado para não criar um cultura do ódio contra o 1% que retém a maior parte da renda mundial. Pra derrotá-los vamos ter que usar a cabeça e não o fígado…

 

 

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Jogo do Poder 2015

Posted by Márcio Gonçalves em julho 19, 2015

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O Brasil é lembrado frequentemente como a terra do Carnaval e do Futebol. Menos vezes, todavia, somos lembrados pela nossa desigualdade gigantesca.

O Brasil é um país de desigualdades, há muito tempo. O último país a abolir oficialmente a escravidão. Tem uma dívida social enorme. Falta educação pública  e saúde pública de qualidade. Falta moradia. O nível de emprego andou melhor, mas isso tá ameaçado agora. O latifúndio é fortíssimo no campo. Aqui não temos castas mas a mobilidade social é muito pequena.

O que a gente precisa mesmo são de grandes políticas populares e nacionais. Coisa boa pro povo. Tivemos poucos vislumbres disso ao redor das décadas republicanas. A norma era governar pra elite e pra no máximo uns 30% mais próximos do topo da pirâmide social. A prioridade era atender o que a “metrópole” precisava. (metrópole = EUA, Europa, o “1º mundo”). De repente, oriundo das fazendas gaúchas, apareceu um Getúlio Vargas implantando direitos trabalhistas, salário mínimo, Petrobrás.  Era pouco, mas mesmo assim ele sofre oposição feroz e se mata para não ser deposto. Também oriundo das fazendas  gaúchas veio João Goulart, que falava em nacionalismo e chagou a prometer reformas de base (agrária, inclusive). Era pouco, mas três semanas depois do comício das reformas de base foi deposto e se iniciou uma ditadura de 21 anos. Oriundo das fábricas do ABC veio Lula que iniciou um projeto de inclusão social pelo emprego e fortalecimento da indústria nacional. Sua sucessora Dilma Roussef, oriunda da classe média mineira e da luta armada dos anos 60, tentou ampliar o caminho aberto por Lula. É pouco, mas ainda assim sofrem oposição feroz e estão ameaçados de impeachment e prisão.

É irônico ver que as iniciativas do trabalhismo brasileiro sejam massacradas do jeito que estão sendo, quando na verdade correspondem a uma necessidade parcial das grandes massas. É irônico ver que todos os governos trabalhistas não rompem com as elites; pelo contrário, sempre mantém ou aumentam alguns privilégios da elite. E, ainda assim são atacados como se fossem sectários intolerantes dispostos a desapropriar tudo e matar toda a burguesia.

Aliás, como os governos trabalhistas também atendem parcialmente a agenda da direita, a extrema esquerda não vê nenhuma diferença entre eles e a direita. Faz críticas pesadas, joga contra,  não vê valor tático em dar algum tipo de apoio e acaba reforçando o jogo da direitona. Esta sim, vê bastante diferença entre si mesma e os trabalhistas.

Tudo que está acontecendo reforça o sentimento de que nossa elite é soberba e hostil com o nosso povo. Não basta ter ódio de pobre e da esquerda, tem que estigmatizar quem atende pelo menos uma parte da dívida social brasileira, mesmo que venha de camadas abastadas, como Vargas, Jango e Dilma. Ao mesmo tempo, nossa elite é deslumbrada e submissa ao estrangeiro, especificamente o “1º mundo” .”Vamos tirar a Petrobrás do pré-sal, deixar as estrangeiras entrar”, proclamam vendilhões velhacos do Senado. Justamente a única política nacional e popular que ainda está intocada no segundo mandato da Dilma. A única carta na manga que ainda resta pra economia brasileira e fonte futura de grana para saúde e educação. Felizmente tiraram esta lei da emergência de votação no senado, mas a ameaça ainda está aí.

Este é o jogo do poder 2015 no Brasil. Mais uma vez um governo trabalhista está sob ataque pesado, mais uma vez cumpre parcialmente uma agenda de direita prejudicial aos trabalhadores, mais uma vez a extrema esquerda acha que vai fazer a revolução (e alguns destes revolucionários tem tão pouca experiência de vida proletária ou de morar nas periferias…).

No momento a direita está no ataque. Ganhará? O que ganhará?

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É o Petróleo, Estúpido!

Posted by Márcio Gonçalves em fevereiro 20, 2015

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1992. Eleição pra presidente dos EUA. Muitos achavam que a reeleição de George Bush seria inevitável por causa da vitória militar no Iraque um ano antes.

O marqueteiro de Bill Clinton pensava diferente. Viu a recessão nos EUA, os eleitores sem grana e sabia que a oposição muitas vezes consegue se beneficiar deste cenário. Assim, ele criou umas frases-chave para o comitê de campanha e uma delas era:

É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!

(ouvia muito estas frases terminadas com “estúpido” nos desenhos do Pernalonga e nas comédias antigas)

A propósito, Clinton se elegeu.

2015. Existe um clima de “punição à corrupção”, impeachment, “desconstrução” de Lula e Dilma.

Mas tudo isso é só um pretexto. Eles atendem outra agenda: privatização da Petrobrás. Sabe o que eles querem mesmo?

É O PETRÓLEO, ESTÚPIDO!

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O Sexto Mandato de Getúlio Vargas

Posted by Márcio Gonçalves em outubro 19, 2014

As ações não são como as modas, não são substituídas, elas são plantadas umas sobre as outras, servem de chão para as próximas. As coisas não ficam para trás ou são substituídas (…). Às vezes se acredita que as coisas ficam no passado e de repente sucede um fato que cria uma fissura e voltam a aflorar na superfície assuntos que se acreditavam estar desaparecidos.”

Silo, pensador argentino, numa palestra para ganhadores do Prêmio Nobel da Paz em 2009

Getúlio Vargas

Getúlio Vargas

O Brasil repete sua história nesta eleição de 2014.

Já em 2009, o jornalista Rodrigo Vianna dizia que as forças políticas dominantes antes da ditadura de 64 tinham reaparecido no Brasil contemporâneo, num brilhante post do seu blog Escrevinhador:

– O trabalhismo era a corrente política inaugurada por Getúlio Vargas, onde o foco do governo era assegurar e ampliar os direitos da massa trabalhadora. Na pré-ditadura, era encarnado pelo antigo PTB, no Brasil atual, o PT de Lula passou a seguir o mesmo caminho

– O fisiologismo era a política de resultados, com um caráter de centro. A grande maioria dos políticos era fisiológico: o importante é estar em algum governo e usufruir do poder. Sendo maioria, acabam sendo os fiéis da balança na composição de um governo no parlamento. Na pré-ditadura, este era o papel do antigo PSD; atualmente, o PMDB é o peso do qual nenhum governo consegue se livrar.

– o udenismo se pautava pelo discurso moralista de direita. Não tendo como atacar os atos de governo, se usava a acusação de corrupção. Esta era marca registrada da UDN de Carlos Lacerda. O PSDB e boa parte da oposição foram herdando este discurso até virarem o udenismo renascido. O discurso udenista era – e continua sendo – ecoado com virulência pelos meios de comunicação, que lhe servem de eco.

Ainda posso acrescentar a este cenário o papel das forças políticas de esquerda marxista, normalmente críticas ao governo trabalhista e, de certa forma, ajudando  a direita udenista.  O PCB tinha este papel, como tem até hoje, junto a outros partidos de esquerda como PSOL e PSTU. O PT já foi um partido com pretensões revolucionárias marxistas mas hoje tem as virtudes e os vícios do bom e velho trabalhismo brasileiro.

João Goulart no velório de Vargas

João Goulart no velório de Vargas

Hoje, tal como ontem.

1954: o udenismo faz acusações ao governo trabalhista de Vargas depois do atentado a Carlos Lacerda. Pressão total pela renúncia, boatos de golpe militar, até que Vargas, inesperadamente, se suicida e o povo se revolta contra a imprensa e a direita que fez a “Campanha do Mar de Lama”.

1964: o udenismo faz acusações de corrupção, demagogia, baderna e golpismo contra o governo trabalhista de João Goulart. É o ápice de uma orquestração coordenada pelo IPES desde 1962. Os militares dão um golpe de Estado, tomam o poder e não saem de lá por mais 21 anos.

2014: o udenismo, encarnado pelo PSDB, faz acusações de corrupção, clientelismo e golpismo contra os governos trabalhistas de Lula e Dilma, que está em campanha pela reeleição. Qual será o desfecho?

Carlos Lacerda acusando

Carlos Lacerda, o porta-voz do udenismo, acusando, acusando e acusando

As Forças Obscuras por trás do Udenismo

O udenismo, antigo e moderno, usa o discurso da corrupção para esconder suas verdadeiras intenções. O golpe de 64 tinha grande apoio do capital nacional e estrangeiro. Na preparação do golpe, a CIA financiou campanhas de deputados na eleição de 1962. Assim, quando o golpe aconteceu, os capitalistas nacionais e estrangeiros no Brasil passaram a controlar o governo e ter facilidades que não tinham com João Goulart. Vale observar que a deflagração do golpe contava até com apoio militar dos Estados Unidos se fosse necessário.

Hoje, o PSDB-UDN conta com apoio do capital financeiro internacional, que na Europa e Estados Unidos protege os bancos e cria desemprego em níveis brutais.

Além disso, várias empresas de petróleo americanas já tem “conversas reservadas” com o PSDB desde 2010 para que eles liberem as extensas reservas do pré-sal no regime de concessão de Fernando Henrique Cardoso, onde o Brasil pouco se beneficia e a vantagem é das empresas petrolíferas. Eles não gostam do regime de partilha aprovado no governo Lula, onde são obrigados a contratar serviços e produtos brasileiros, além de entregar parte do petróleo ao Brasil.

A mídia tem razões diretas para apoiar a candidatura de Aécio Neves. Com a internet, o mercado editorial está passando por uma diminuição, bem como a TV aberta. O dinheiro proveniente dos anúncios federais pode ajudar a enfrentar as dificuldades, como já acontece hoje em São paulo, onde o governo estadual compra abundantemente assinaturas das revistas Veja e dos jornais Folha e Estado de S. Paulo.

Para finalizar, os grupos de fanáticos anticomunistas que seguem o “monge do ódio” Olavo de Carvalho e o Clube Militar (saudosistas da ditadura) também apoiam o PSDB-UDN. A discriminação explícita de Silas Malafaia e de grupos de médicos raivosos também diz presente

Por que Sexto Mandato?

Conto como o primeiro mandato de Vargas o que ele recebeu por eleição direta em 1950. Apesar dos benefícios trabalhistas terem começado enquanto Vargas ainda era ditador, aquele período tem muita coisa negativa. O mandato direto de Vargas tem trabalhismo e nacionalismo sem mão-de-ferro. Prefiro contar daí.

O “segundo mandato” de Vargas é, com licença poética, o mandato de João Goulart. Além de ele ser ex-ministro de Vargas e do mesmo partido, seu governo também foi caracterizado por trabalhismo e nacionalismo.

O “terceiro mandato” de Vargas é, com mais licença poética ainda, o primeiro mandato de Lula. Teve até “campanha do mar de lama” rebatizada de “mensalão”. Agora é só continuar contando:

“quarto mandato” de Vargas = segundo mandato de Lula

“quinto mandato” de Vargas = primeiro mandato de Dilma

E, finalmente, chegamos à disputa que vai definir se haverá um “sexto mandato” para Vargas.

Do lado de Dilma, o nacionalismo, o desenvolvimentismo, a inclusão social. Programas sociais, educacionais. A proteção dos salários, a valorização real do salário mínimo. O uso estratégico do pré-sal como indutor da economia.

Do lado de Aécio, capital financeiro, petrolíferas americanas, cinco famílias que comandam mídia influente no Brasil, fanáticos de extrema-direita. Gente que vai continuar sem o controle do Estado se Dilma ganhar.

O que o Brasil vai decidir? O que você decide?

Dilma no segundo enterro de João Goulart, ao lado da viúva Maria Tereza

Dilma no segundo enterro de João Goulart, ao lado da viúva Maria Tereza

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O Médico e o Monstro

Posted by Márcio Gonçalves em julho 27, 2014

Nunca tinha ouvido falar do Dr. Gene Sharp até o final de 2013.  Ele é uma figura polêmica.

O Cientista da Rebelião

Dr. Gene Sharp, PhD em Teoria Política

Dr. Gene Sharp, PhD em Teoria Política

Gene Sharp nasceu nos EUA em 1928. Preso por protestar contra o alistamento militar  forçado na Guerra da Coreia em 1953, considerou os métodos de não-violência de Mahatma Ghandi e outros como base para os seus estudos, que o levaram a um doutorado em Teoria Política pela universidade de Oxford em  1968.

Seu primeiro livro foi publicado em 1960 com prefácio do físico Albert Einstein e era justamente sobre Gandhi. Seu segundo livro foi baseado na sua tese de doutorado e se chamava “The Politics of Nonviolent Action” (“A Política da Ação Não-violenta”). É deste livro que sai a didática lista “198 Métodos de Ação Não-violenta”.  Estão divididos em categorias como “protestos”, “não-cooperação social” (por exemplo, boicote a eventos), “não-cooperação econômica” (greves e boicotes de produtos, fornecedores, etc), “não cooperação política” (rejeição de autoridades, boicote a eleições), e “intervenção  não-violenta” (ocupações de rua, de prédios, etc).

Na década de 90, Sharp foi levado a Birmânia por um militar americano para dar conselhos para ajudar a derrubar a ditadura local. Sharp acabou escrevendo o manual “Da Ditadura à Democracia”, que além de auxiliar os birmaneses, começou a ser traduzido e se espalhou pelo mundo até chegar ao leste europeu e influenciou todas as revoltas anti-regime na Sérvia, na Ucrânia, Lituânia, Bielo-Rússia, etc (as chamadas “revoluções coloridas” das décadas de 90 e de 2000).

 

Um Pouco mais sobre Não-violência

Mahatma Gandhi

Mahatma Gandhi

O tema da luta não-violenta começou a ser mais conhecido com Mahatma Gandhi. A não-violência era parte de um caminho de opções éticas amplas, o “caminho do bem” ou Satiagraha que se contrapunha frontalmente à brutalidade e à discriminação dos ingleses na colonização da Índia.

Martin Luther King

Martin Luther King

Com Martin Luther King, a não-violência voltou na campanha pelos direitos civis, para acabar com a discriminação contra os negros nos Estados Unidos. Luther King disse ter se inspirado em Gandhi.

Mario Luiz Rodriguez Cobos, o "Silo"

Mario Luiz Rodriguez Cobos, o “Silo”

O pensador argentino Mario Luiz Rodriguez Cobos (conhecido como Silo) propunha a não-violência ativa como um meio de ação que rechaçava todas formas de violência (física, econômica, psicológica, etc). Neste caminho, seriam essenciais buscar a corerência (conformidade entre os pensamentos, sentimentos e ações de cada um) e a reciprocidade (que cada um trate os demais como quer ser tratado).

Para Gene Sharp, a não-violência era uma tática a se usar para derrubar governos autoritários. O que colocar no lugar? Depende do que os “ativistas não-violentos” quiserem assim que derrubarem o governo atual – Sharp nunca foi a fundo nesta questão e para alguns, se ele começou influenciado por Gandhi, afastou-se dele ao não abordar as consequências destes atos. E aliás, o governo-alvo da ação nem precisa ser autoritário – as técnicas de desgaste não-violento de Sharp são tão boas que basta começar explorando as contradições de governos eleitos que eles acabam caindo também. ( O chamado “Golpe de Estado suave”).

 

O Estranho Caso do Dr. Sharp e do Sr. Derruba-Governo*

Dr. Gene Sharp, PhD em teoria política

Dr. Gene Sharp, PhD em teoria política

Gene Sharp foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz em 2011, 2012 e 2013, pelos sua contribuição a metodologias não-violentas de luta.

Mas o bom doutor aparenta ter um outro lado, mais sombrio.

Em 1983, Sharp funda o Albert Einstein Institution (AEI), para aprofundar e divulgar seus estudos. À medida que se vê quem são os financiadores do AEI, a coisa vai ficando mais estranha:

Open Society Institute – organização que “promove a democracia” e o conceito de “sociedade aberta” pelo mundo afora, Pertence ao magnata George Soros, que na década de 1990 parecia organizar ataques especulativos contra moedas nacionais e solapou o real no começo de 1999.

Fundação Ford – tem fama de promover todo tipo de organização que ajude o modo de vida americano a se espalhar pelo mundo, coisa que já fez inclusive  com o CEBRAP do Fernando Henrique Cardoso.

National Endowment for Democarcy  (NED)– fundação que é mantida diretamente pelo Departamento de Estado dos E.U.A., sendo assim um ponta-de-lança da política externa americana.

International Republican Institute (IRI) – tenta infliuenciar os paísese a adotar uma política neoliberal. O IRI e o NED executam algumas funções previamente executadas pela CIA (A Agência Central de INteligência dos EUS)

E é nestas más companhias que Gene Sharp andou influenciando uma série de revoltas mundo afora. O livro “Da Ditadura à Democracia” , conforme já dito, foi traduzido para várias línguas e influenciou em várias lutas antigoveno, notadamente no leste europeu (Sérvia, Geórgia, Ucrânia) e em muitos países da Primavera Árabe.

 

Qual será a verdade? 

O cientista? O golpista testa-de-ferro da política externa dos EUA? Uma mistura das duas coisas em proporção desconhecida? Quem é Gene Sharp?

Conhecer um pouco mais da história dos movimentos influenciados por Sharp pode trazer mais elementos para debater estas questões. Pretendo fazer post sobre isso a futuro.

 

 

* esta foi uma tentativa de fazer trocadilho com o título “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde”,  de Robert Louis Stevenson, cujo título brasileiro era “O Médico e o Monstro”

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Poder Formal e Poder Real

Posted by Márcio Gonçalves em maio 25, 2014

As pessoas são a fonte do poder real

As pessoas são a fonte do poder real

A verdadeira fonte de poder, o poder real, são as pessoas. As maiorias decidem como viver e que ações vão tomar para atingir seus objetivos. Assim, o poder real é o poder das maiorias, é o poder que deveria ser respeitado e honrado nas sociedades humanas, deveria ser respeitado e honrado nas democracias. Mas sabemos que não é assim. As minorias sempre se impuseram às maiorias através de vários modos de poder das minorias:

– o poder da força física: os exércitos, as polícias, a violência física

– o poder econômico: as maiorias precisam trabalhar para viver, o dinheiro é o instrumento de prisão de indivíduos, famílias e países inteiros (através de endividamentos)

– o poder de formar opinião: convencer as maiorias a não questionarem nada porque “as coisas são assim” por alguma razão fatalista ou metafísica. As religiões organizadas têm uma lamentável tradição histórica de exercer este papel.

Mesmo a democracia formal, onde o eleitor é escutado na escolha de representantes, involuiu e hoje as eleições  estão tão contaminadas pelo poder econômico que dificilmente os governos conseguem existir sem estar ancorados em algum apoio do capital. O poder formal está submetido ao poder econômico.

O PT FOCOU NO PODER FORMAL

O PT sempre buscou o poder formal, mas nos anos iniciais tinha um importante componente de busca do poder real, de trabalho na base social em sindicatos, associações estudantis e igrejas. Com a eleição de José Dirceu para a presidência do partido em 1995, houve uma guinada. O PT meio que desistiu de conquistar as consciências para chegar ao voto; os votos bastam, obrigado. Pragmatismo à toda prova.

O eleitor vota com o bolso. Se ele acha que seu bolso está bem, tende a votar na situação. Se ele acha que seu bolso está ruim, tende a votar na oposição. Simples assim. A história das eleições recentes têm exemplos.O voto ideológico é minoria.  Sabendo disso, e sabendo que o fiasco do segundo mandato de Fernando Henrique ia gerar uma brecha, o PT apostou no recall dos eleitores e em tornar-se palatável para o capital, que nunca gostou muito dele.

E, para se manter no poder formal, fizeram o que todos fazem: caixa-dois, apoio  dos políticos fisiológicos (Sarney, Renan, etc.), concessões ao capital. As empreiteiras estão satisfeitas com o PT, bem como os varejistas. O capital industrial faz um jogo duplo, enquanto o capital financeiro simplesmente o detesta.

Mesmo com todas estas concessões e acordos, que faz com que a esquerda enxergue o PT como gerente da ordem neoliberal, a imprensa tradicional trata o PT como se fosse um grupo de comunistas radicais prestes a usurpar o país. Ataque dos dois lados

Com todas as críticas que se possa ter, os anos Lula e Dilma efetivamente foram um governo de centro-esquerda com viés nacionalista, desenvolvimentista e de inclusão social. Mas os interesses que ele contraria podem feri-lo de morte se ele não buscar alguma forma de se envolver com o poder real, se não trabalhar a conscientização das pessoas. A tal “ferida de morte” já aconteceu antes com Getúlio Vargas e João Goulart…

 MOVIMENTOS SOCIAIS E PODER REAL

Nas muitas manifestações atuais, vejo coisas boas e alguns problemas. Entre as coisas boas é gente bem-intencionada e cheia de energia realmente preocupada com nossas mazelas sociais, tanto as do momento quanto as mais antigas. A intromissão violenta e ganaciosa da FIFA, remoções de moradia abruptas, os problemas de saúde, educação e transporte público.

A primeira coisa que me preocupa é o descolamento destes movimentos com a grande maioria das pessoas. Basicamente há uma adesão apaixonada de pessoas com mais escolaridade e um perfil de classe média e nada de povão. Este descolamento demonstra uma ineficiência de transmitir o que se considera mais certo para quem supostamente mais precisa. Isto me lembra como os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura militar morriam sem nenhum apoio popular. O poder rela é o poder das maiorias, não esqueçamos. Quando somos “poucos e esclarecidos”, o melhor é esclarecer mais gente.

A segunda coisa é um padrão que me preocupa nas manifestações que têm surgido pelo mundo dese 2011:

Manifestações na Espanha: a direita ganha as eleições e arrocha o povo no estilo FMI
Manifestações no Egito: derrubam um ditador, depois derrubam um governo eleito, e aí vem o golpe militar
Manifestações na Líbia: derrubam um ditador mas o país se torna uma terra de ninguém
Manifestações na Ucrânia: derrubam um governo eleito que a população considerava corrupto, mas extremistas de direita e neonazistas tomam o controle.
Manifestações na Tailândia: derrubam um governo eleito através de um golpe militar para “por ordem ao país”
Manifestações na Venezuela: total intolerância ao governo eleito. Guerra Civil?
Manifestações no Brasil: que rumo se quer?

Parece-me que toda energia e boa-vontade dos lutadores sociais está sendo usada como cavalo-de-troia para maquinações do Departamento de Estado dos E.U.A. Esta brecha surge primeiro por falta de poder real: movimentos pequenos são mais facilmente sobrepujados por ativistas violentos. Segundo, a estratégia destes movimentos parece ignorar e (desprezar) o poder formal. Há um grande sentimento de que há crise de representatividade, que as velhas estruturas do poder formal não mais representam a vontade das pessoas, que tudo isto é deixado meio de lado. E neste vácuo os aproveitadores já estão preparados para entrar  – o poder formal ainda funciona para muita coisa…

CONCLUSÃO(?)

O poder real precisa se organizar para superar as violências das diversas formas de poderes das minorias, mas sem desprezar o poder formal – antes que algum aventureiro o faça…

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