Fita de Moebius

humanismo – política – sci-fi – software livre – achismos

Videodrome

Posted by Márcio Gonçalves em junho 23, 2014

O poster de Videodrome

“Primeiro controla sua mente, depois destrói seu corpo”

Um dos encantos da ficção científica são as alegorias que determinadas histórias proporcionam. Alegorias sobre o presente, sobre o momento em que a obra foi feita, e não sobre o futuro onde boa parte da FC é ambientada.

No filme  O Planeta dos Macacos (1967) a última cena revelava que o astronauta Taylor (Charlton Heston), depois de passar um perrengue numa sociedade de macacos inteligentes, encontra a Estátua da Liberdade e descobre que na verdade seu suplício foi vivido na Terra. Taylor começa o filme questionando o que a humanidade faria no futuro e descobre que ela conseguiu destruir a si mesma e se tornar mais selvagem que os símios. Alegoria adequada para um mundo em plena guerra fria e que podia se destruir a qualquer momento.

planeta dos macacos estátua da liberdade

Taylor descobre que os humanos conseguiram destruir tudo e ser mais selvagens que os animais

Em Matrix (1999), o hacker Neo (Keanu Reeves) escolhe tomar uma pílula vermelha para encontrar a resposta à pergunta que o incomoda (“O que é a Matrix?”). Descobre que passou toda sua vida numa gosma rosa, como aliás quase toda a humanidade, servindo de fonte de energia para os computadores que dominam o mundo. Os seres humanos são como pilhas que alimentam o sistema. Alegoria perfeita para a situação que vivemos: nosso trabalho cotidiano alimenta as engrenagens das várias estruturas de poder – por mais que não gostemos da ideia.

O despertar de Neo

Neo desperta e descobre que somos todos pilhas para fornecer energia ao sistema

Em Videodrome (1983), um dos donos de uma TV a cabo, Max Renn (James Woods) quer incrementar sua programação, que é recheada de apelações sexuais. Através de um aparente programa sadomasoquista pirata acaba encontrando uma tecnologia que envolve completamente o telespectador nas suas próprias fantasias, o limite entre a imagem na tela e o real se confunde e alucinações começam a surgir. Alegoria fortemente influenciada pelas ideias do teórico da comunicação  Marshall McLuhan, era uma possibilidade distante para a tecnologia da época do filme, mas totalmente adequada aos meios de agora. Videodrome supunha uma interatividade que videocassete, videogames de 1ª geração e produção independente de TV não tinham – mas que internet e redes sociais  no seu  celular  já tem, acompanhando você 24 horas por dia.

O filme não se passa num futuro, mas na sua época de produção (início dos anos 80), o que o torna um caso raro de alegoria para a época em que foi feita, mas funciona melhor no futuro – um cyberpunk que ignorava a existência de rede de computadores.

entrando na TV

Max Renn é seduzido pela imagem e mergulha na TV, mas esta metáfora serve melhor para a internet das redes sociais

Videodrome também previa uma exacerbação de desejos e  sentidos que a cultura do vídeo traria. O personagem de Debbbie Harry chega a falar numa entrevista dentro do filme que vive num estado de “superestimulação” e que ela acreditava que os meios de comunicação levariam toda a sociedade no mesmo caminho. A sociedade onde se pode ter vídeos de assassinatos reais e sexo explícito na sua telinha foi se consolidar uns 25 anos depois do filme.

fala debbie harry

“Eu vivo num estado altamente excitado de superestimulação”

No meio da trama surge até uma obra religiosa que dava aos sem-teto uma dose diária de TV  (em biombos individuais!)  junto com as refeições, explicando que havia pessoas que tinham alguma dependência de vídeo. Os casos de viciados em TV se mostraram raros, mas se falarmos de redes socias, a coisa muda de figura. A chave – não é demais enfatizar – é o nível de interatividade, que na cultura do vídeo era infinitamente menor que na internet – essa sim, com potencial viciante.

O filme ainda tem um personagem inteclectual que só se manifesta através de vídeos gravados e usa um psedônimo. Qualquer semelhança com avatares  da rede não é mera coincidência.

Não é à toa que Videodrome foi relativamente rejeitado pelo grande público quando lançado. Além de fazer uma extrapolação que não coube no seu tempo, ainda tinha doses de sexo, violência e escatologia  acima da média da época. Nas exibições de teste quase só houve reclamações. Mas nada parece gratuito neste filme do diretor David Cronenberg – os excessos fazem parte dos seus filmes, do seu modo de contar a história – nada é feito apenas para chocar o espectador.

O filme foi vendido como “terror”, e realmente tem coisas assustadoras. Mas isto também fez com que o preconceito de terror como gênero menor fosse acoplado ao filme. (E convenhamos, na época vivia-se o boom de filmes tipo “sexta-feira 13” cuja história se resumia a colocar grupos de jovens indo pra farra e sendo assassinados por Jason/MikeMeyers/FreddieKrueger, que explica de onde vinha o preconceito…).

Cronenberg faz fantasias sinistras que caberiam na editora DC/Vertigo nos anos 90, mas seu cinema só passou a ser mais reconhecido a partir de sua refilmagem de A Mosca (1986), curiosamente tão ou mais escatológico que Videodrome…

A mistura entre alucinações e realidade também pode tornar o filme confuso para o grande público. E quem for assisti-lo hoje em dia tem que dar um desconto para os efeitos especiais, modestos comparadas ao realismo da computação gráfica dos últimos 10 anos. Mas, de maneira geral, ainda bem que eu demorei 30 anos para conseguir ver este filme. Ele faz mais sentido agora.

poster alternativo para videodrome

poster alternativo para videodrome

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Poder Formal e Poder Real

Posted by Márcio Gonçalves em maio 25, 2014

As pessoas são a fonte do poder real

As pessoas são a fonte do poder real

A verdadeira fonte de poder, o poder real, são as pessoas. As maiorias decidem como viver e que ações vão tomar para atingir seus objetivos. Assim, o poder real é o poder das maiorias, é o poder que deveria ser respeitado e honrado nas sociedades humanas, deveria ser respeitado e honrado nas democracias. Mas sabemos que não é assim. As minorias sempre se impuseram às maiorias através de vários modos de poder das minorias:

– o poder da força física: os exércitos, as polícias, a violência física

– o poder econômico: as maiorias precisam trabalhar para viver, o dinheiro é o instrumento de prisão de indivíduos, famílias e países inteiros (através de endividamentos)

– o poder de formar opinião: convencer as maiorias a não questionarem nada porque “as coisas são assim” por alguma razão fatalista ou metafísica. As religiões organizadas têm uma lamentável tradição histórica de exercer este papel.

Mesmo a democracia formal, onde o eleitor é escutado na escolha de representantes, involuiu e hoje as eleições  estão tão contaminadas pelo poder econômico que dificilmente os governos conseguem existir sem estar ancorados em algum apoio do capital. O poder formal está submetido ao poder econômico.

O PT FOCOU NO PODER FORMAL

O PT sempre buscou o poder formal, mas nos anos iniciais tinha um importante componente de busca do poder real, de trabalho na base social em sindicatos, associações estudantis e igrejas. Com a eleição de José Dirceu para a presidência do partido em 1995, houve uma guinada. O PT meio que desistiu de conquistar as consciências para chegar ao voto; os votos bastam, obrigado. Pragmatismo à toda prova.

O eleitor vota com o bolso. Se ele acha que seu bolso está bem, tende a votar na situação. Se ele acha que seu bolso está ruim, tende a votar na oposição. Simples assim. A história das eleições recentes têm exemplos.O voto ideológico é minoria.  Sabendo disso, e sabendo que o fiasco do segundo mandato de Fernando Henrique ia gerar uma brecha, o PT apostou no recall dos eleitores e em tornar-se palatável para o capital, que nunca gostou muito dele.

E, para se manter no poder formal, fizeram o que todos fazem: caixa-dois, apoio  dos políticos fisiológicos (Sarney, Renan, etc.), concessões ao capital. As empreiteiras estão satisfeitas com o PT, bem como os varejistas. O capital industrial faz um jogo duplo, enquanto o capital financeiro simplesmente o detesta.

Mesmo com todas estas concessões e acordos, que faz com que a esquerda enxergue o PT como gerente da ordem neoliberal, a imprensa tradicional trata o PT como se fosse um grupo de comunistas radicais prestes a usurpar o país. Ataque dos dois lados

Com todas as críticas que se possa ter, os anos Lula e Dilma efetivamente foram um governo de centro-esquerda com viés nacionalista, desenvolvimentista e de inclusão social. Mas os interesses que ele contraria podem feri-lo de morte se ele não buscar alguma forma de se envolver com o poder real, se não trabalhar a conscientização das pessoas. A tal “ferida de morte” já aconteceu antes com Getúlio Vargas e João Goulart…

 MOVIMENTOS SOCIAIS E PODER REAL

Nas muitas manifestações atuais, vejo coisas boas e alguns problemas. Entre as coisas boas é gente bem-intencionada e cheia de energia realmente preocupada com nossas mazelas sociais, tanto as do momento quanto as mais antigas. A intromissão violenta e ganaciosa da FIFA, remoções de moradia abruptas, os problemas de saúde, educação e transporte público.

A primeira coisa que me preocupa é o descolamento destes movimentos com a grande maioria das pessoas. Basicamente há uma adesão apaixonada de pessoas com mais escolaridade e um perfil de classe média e nada de povão. Este descolamento demonstra uma ineficiência de transmitir o que se considera mais certo para quem supostamente mais precisa. Isto me lembra como os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura militar morriam sem nenhum apoio popular. O poder rela é o poder das maiorias, não esqueçamos. Quando somos “poucos e esclarecidos”, o melhor é esclarecer mais gente.

A segunda coisa é um padrão que me preocupa nas manifestações que têm surgido pelo mundo dese 2011:

Manifestações na Espanha: a direita ganha as eleições e arrocha o povo no estilo FMI
Manifestações no Egito: derrubam um ditador, depois derrubam um governo eleito, e aí vem o golpe militar
Manifestações na Líbia: derrubam um ditador mas o país se torna uma terra de ninguém
Manifestações na Ucrânia: derrubam um governo eleito que a população considerava corrupto, mas extremistas de direita e neonazistas tomam o controle.
Manifestações na Tailândia: derrubam um governo eleito através de um golpe militar para “por ordem ao país”
Manifestações na Venezuela: total intolerância ao governo eleito. Guerra Civil?
Manifestações no Brasil: que rumo se quer?

Parece-me que toda energia e boa-vontade dos lutadores sociais está sendo usada como cavalo-de-troia para maquinações do Departamento de Estado dos E.U.A. Esta brecha surge primeiro por falta de poder real: movimentos pequenos são mais facilmente sobrepujados por ativistas violentos. Segundo, a estratégia destes movimentos parece ignorar e (desprezar) o poder formal. Há um grande sentimento de que há crise de representatividade, que as velhas estruturas do poder formal não mais representam a vontade das pessoas, que tudo isto é deixado meio de lado. E neste vácuo os aproveitadores já estão preparados para entrar  – o poder formal ainda funciona para muita coisa…

CONCLUSÃO(?)

O poder real precisa se organizar para superar as violências das diversas formas de poderes das minorias, mas sem desprezar o poder formal – antes que algum aventureiro o faça…

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Democracia Formal e Democracia Real

Posted by Márcio Gonçalves em maio 10, 2014

Existem eleições. Você vota. Pessoas são eleitas. Em vários países do mundo este processo é identificado como “democracia”.  Se o texto for um pouquinho mais detalhista, fala-se em “democracia representativa”, onde são escolhidos representantes, uma vez que não seria possível ouvir todos os cidadãos para que as decisões fossem tomadas. Em contraposição a isto, teríamos a “democracia direta”, onde as decisões são tomadas diretamente pelos cidadãos.

Eu gosto de pensar na democracia representativa como uma democracia formal, onde o rito eleitoral é preservado, mas a representatividade dos eleitos só têm declinado com o tempo. Em praticamente todo lugar do mundo, parlamentares e governantes representam o poder econômico, ao invés de representar o interesse da maioria. A definição do conceito de democracia formal está no livro “Cartas a Meus Amigos”, excepcional análise de vários problemas sociais, com propostas de linhas gerais de ação. O autor das “Cartas…” (lançado no início dos anos 90)  é o pensador argentino Silo (1938-2010), pseudônimo de Mario Luiz Rodriguez Cobos. Em contraposição à democracia formal, Silo apresentava o conceito de democracia real, onde todas as decisões que afetam a vida de uma pessoa têm a sua participação.

Certamente a democracia real usaria muitos mecanismos de democracia direta (plebiscitos, etc). Mas as sugestões não ficavam por aí. Não seria necessário quebrar o paradigma representativo para começar a mudar o jogo. Silo apontava a divisão da democracia formal em dois atos:

1 – a votação, onde ainda existia o vínculo claro entre o eleitor e os representantes ( o candidato precisa convencer os eleitores a votar em si)

2 – o exercício do mandato dos eleitos, onde este vínculo desaparecia ao vínculo com financiadores de campanha, interesses próprios, disputas pessoais, etc

Para botar um pouco de ordem na zona, Silo propunha uma lei de responsabilidade política, que obrigasse o candidato a registrar em cartório seu programa parlamentar ou de governo; se sua atuação fosse diferente do programa, estava aberta a possibilidade de perda de mandato por convocação popular – afinal, o mandato é dos eleitores.

Na democracia formal também há o lema de que todos podem “votar e ser votados”. Com relação a parte de votar, não há dúvida de que todos têm que fazer – tem até punição se não fizer. Agora, ser votado é mais difícil. O Brasil não permite candidatos independentes (sem partido). Se você não está satisfeito com as legendas que já existem e quer criar uma nova, precisa recolher assinaturas de umas 500 mil pessoas distribuídas em pelo menos nove estados da federação, coisa que nem uma ex-candidata a presidente  com cacife 20 milhões de votos conseguiu fazer em tempo hábil. Num país gigantesco como o Brasil, por que não permitir a criação de partidos estaduais?

E um ponto crucial. É imprescindível proibir o financiamento corporativo de campanhas. No momento, este é a parte mais visível da poluição política no Brasil, e em todos os países que permitam isto. Ela torna a promiscuidade legal. Ou alguém acha que um parlamentar ou governante vai agir contra empresas que financiam sua campanha?

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Reconhecimento Tardio

Posted by Márcio Gonçalves em abril 23, 2014

Gosto das trilhas sonoras de John Williams desde criança. Literalmente. Eu nem imaginava quem fazia a trilha da série Terra de Gigantes (que era dele) e já era capaz de cantarolá-la.

John Williams fez trilhas com os instrumentos da música erudita, mas as melodias são fáceis de guardar como música popular. Superman, Indiana Jones, Star Wars, E.T, etc.

E eu achava que Jerry Goldsmith era do segundo time, um John Williams menor. Hoje eu vejo o tamanho da bobagem que era minha avaliação. Além de excelente compositor, Goldsmith é mais versátil que Williams, tenho que reconhecer. As melodias de Williams estão na minha cabeça  e na de um monte de fãs de cinema, mas as de Goldsmith também. Enquanto a majestosidade parece a marca registrada de John Williams, Jerry Goldsmith era um camaleão.

As provas são as próprias trilhas de Goldsmith. Vejamos algumas.

Planeta dos Macacos (1967):

 

Star Trek – The Motion Picture (1979):

 

Gremlins:

 

Chinatown:

 

E o “tema de Carol Anne” de Poltergeist, que Goldsmith compôs para Spielberg. John Williams, que era quase exclusivo de Spielberg, estava ocupado com E.T.:

 

Esta última é estranha. Foi composta como uma pseudo canção de ninar para a personagem Carol Anne, de só 6 anos – e quem já viu o filme sabe que a menininha passa um aperto grande com as assombrações, num filme cheio de sustos. Curiosamente, colocaram este tema na abertura do filme, ao invés de algo mais sombrio.

Goldsmith tinha fama de fazer trilha para qualquer filme que o convidassem. Fez a trilha de Rambo – Programado para Matar, um filme de ação em que um veterano do Vietnã é hostilizado numa cidade dos E.U.A. e após usar todo seu conhecimento de guerra, tem um colapso nervoso e se entrega à polícia (no final original se matava). Um filme com alguma pretensão psicológica, pois. Goldsmith fez a trilha dentro do que o filme pedia:

 

Aí veio a  continuação Rambo II e o filme virou o delírio narcísico patriótico pró-guerra pelo qual a série se tornou conhecida. O que me impressiona é como Goldsmith pega  mesma melodia que usava antes como base para o segundo filme, bem mais espetacularizado:

 

Será que algum outro compositor conseguia fazer trilhas com caras tão diferentes e tanta competência?

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O Ralo do Dinheiro Público

Posted by Márcio Gonçalves em abril 20, 2014

o ralo do dinheiro público é a fationa amarela

o ralo do dinheiro público é a fationa amarela

 

Todo mundo quer saúde pública  e educação pública de qualidade. Nos último meses se coloca a Copa como grande vilã do gasto do dinheiro público que deveria ser usado em melhores escolas e hospitais públicos. Só que o verdadeiro vilão é outro.

Sobre os gastos da Copa, vamos focar nos estádios que são o fetiche dos protestos. O governo alega que emprestou 8 bilhões de reais – que, por serem empréstimos, voltarão. Suponhamos que o governo estivesse mentindo. Que ao invés de 8 bilhões em 7 anos foram gastos 80 bilhões. Ainda assim isto não seria nem 10% do 1 trilhão de reais que o governo gasta todo ano com os juros da dívida pública! 1 trilhão! Todo ano!  Caraca!

(Os juros da dívida pública são a grande fatia amarela do orçamento na figura que ilustra este post).

E pra onde vai este dinheiro? Para quem tem títulos da dívida pública, ou seja, quem em algum momento comprou títulos emitidos pelo governo para superar o seu déficit. Ou seja, grandes bancos de investimento, brazucas e gringos, fora alguns investidores individuais.

Esta parcela do orçamento nunca deixa de ser gasta. Nunca é desviada pela corrupção. É intocável. A Copa vai passar, a Olimpíada vai passar, os protestos vão passar e os juros da dívida pública  continuarão lá, sem que a maioria dos brasileiros saiba. Todos os governos se submetem a ela, em maior ou menor grau. Se alguém romper com ela de vez, provavelmente cai no dia seguinte.

O governo Dilma é considerado mais conservador que o de Lula em alguns pontos, mas no caso dos juros foi de uma ousadia tremenda quando incentivou o Banco Central a diminuir os juros da taxa Selic. A selic influencia diretamente no valor que será pago aos juros da dívida pública. Quando a Selic baixou entre 2011 e início de 2013, os juros da dívida também baixaram. Mas subitamente começou o terrorismo midiático da inflação,  e lá vai a taxinha subindo de novo. Quem mandou mexer com o dinheiro da elite financista?

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Cruzando o Tempo

Posted by Márcio Gonçalves em abril 13, 2014

capa antológica

capa antológica

Vejam o valor de uma capa. A história acima, “Dias de um Futuro Esquecido” (Days of Future Past), é uma das preferidas dos fãs de X-Men e vai virar filme este ano. Mas nunca tinha me tocado do quanto a capa pode ter contribuído para o sucesso da história até o meu filho, então com 10 anos e que não lê X-Men, ter olhado para ela e contemplado-a por longos segundos e começado a me fazer perguntas.

Que a capa é icônica já é meio senso comum. O que não fica tão claro à primeira vista é que ela reúne duas características que quase não andam juntas: é sensacionalista e não é vulgar. Ou seja, o choque que vem da capa não é de associações gráficas com sexo nem com violência, mas da sugestão de que os heróis da revista X-Men tinham sido dizimados, invertendo a lógica de que os heróis sempre vencem. No futuro representado por aquela história, os heróis perderam. Quem não morreu está preso. O sonho de convivência pacífica entre humanos e mutantes acabou. Para reverter esta derrota, os mutantes sobreviventes fazem com que um deles projete a mente para seu próprio corpo no passado de modo a alterar um evento-chave: o assassinato de um senador por um grupo de mutantes terroristas.

A historia é uma pequena joia e muito influente. Foi publicada em duas partes de 22 páginas. Se tivesse mais umas dez páginas para detalhar visualmente o que aconteceu do assassinato do senador até aquele futuro ficava ainda melhor. Sinceramente não lembro de futuros sombrios em histórias de super-herois antes desta. A ideia de viagem no tempo com a mente só voltou a ser usada no filme O Efeito Borboleta.

Como foi publicada originalmente em 1980, muitos acreditaram  que  havia um filme de 1984 que teria plagiado Dias de um Futuro Esquecido:

oficialmente, este filme não é plágio dos X-Men

oficialmente, este filme não é plágio dos X-Men

Pensem só: volta ao passado para impedir um evento-chave. Se os X-Men vinham impedir o assassinato de um senador, Schwarzenegger vonha matar a futura mãe do líder dos humanos. Como no Brasil a história saiu pela primeira vez dois anos depois de “The Terminator” até o pessoal da Editora Abril botou a legenda “exterminadores do futuro” na parte de baixo da capa.

Pode até ser pretensão dos fãs de quadrinhos, mas o fato é que Terminator é plágio de outra coisa, pelo menos oficialmente.

O escritor Harlan Ellison é autor do episódio “Soldier” da série Outer Limits, sobre um soldado que viaja no tempo. Parece genérico demais pra ser plágio? Vejam a semelhança entre os dois, compilada no fan site James Cameron online:

Soldier e o Exterminador do Futuro: o que vocês acham?

Soldier e o Exterminador do Futuro: o que vocês acham?

E ainda tem uma outra história de Ellison para Outer Limits, “O Demônio da Mão de Vidro”, onde um sujeito desmemoriado luta contra pessoas estranhas que, depois se descobre, são alienígenas que vem de um futuro onde extinguiram a humanidade. Ellison diz que esta não inspirou O Exterminador do Futuro. Sei não. Acho que James Cameron saiu pegando um pouco de cada um, inclusive dos X-Men (e acho que o Exterminador tem méritos de sobra, independente disso). E, quem sabe, uma outra história célebre de Ellison, para a série Clássica de Jornada nas Estrelas também não pode ter sido mais uma fonte:

Kirk e Spock diante do Guardião do Tempo

Kirk e Spock diante do Guardião do Tempo

Eu e minha geração praticamente fomos iniciados com o tema de viagem no tempo com  “A Cidade no Limite da Eternidade” (The City on the Edge of Forever). (Vamos reconhecer que a série Túnel do Tempo também foi importante, mas não estiquemos demais este post).

Kirk, Spock e McCoy, através de um ente chamado “Guardião do Tempo”, vão parar na Grande Depressão dos anos 30, onde Kirk conhece a bela e idealista Edith Keeler. Alguma coisa foi modificada no passado e cabe a eles mudar a situação. Eles cumprem a missão, não sem surpresas.

 

O Capitão Kirk e Edith Keeler

O Capitão Kirk e Edith Keeler

Quem dera J.J Abrams adaptasse o roteiro original de Cidade no Limite da Eternidade para seu próximo Star Trek. O roteiro original de Ellison era bem mais amplo e teve que ser cortado por questões de orçamento e tempo. Bem, do jeito que as coisas andam, pode ser que alguém achasse que este hipotético filem era plágio de O Exterminador do Futuro… hehehe.

Tem muitas mais histórias de viagens no tempo. Este post não tinha a intenção de esgotar o tema, só falar de algumas preferências pessoais. E não esqueçamos que viagens no tempo são virtualmente impossíveis, com exceção daquela que fazemos diariamente, na velocidade de 24 horas por dia, do presente em direção ao futuro…

 

Days of Future Past, edição original

Days of Future Past, edição original

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Acabou a trégua.

Posted by Márcio Gonçalves em março 6, 2014

Vamos supor os seguintes fatos:

1 – o favoritismo de Dilma Roussef nas eleições presidenciais de 2014 contraria muitos interesses: indústrias petrolíferas americanas, capital financeiro, etc

2 – existe um esforço consciente para desestabilizar o país e dificultar a reeleição de Dilma.

Partindo destas premissas, dá para considerar como linhas de ataque ao governo federal:

a – manifestações violentas que passam a imagem de um país instável, e que vem ocorrendo desde junho de 2013

b – noticiário econômico extremamente negativo, cuja última criação é a “tempestade perfeita” de adversidade que fará a economia ruir ainda este ano

c – desmoralização do PT  através do processo do “mensalão”, a Ação Penal 470 do Supremo Tribunal Federal (STF).

d – delírios paranoicos de que o PT vai implantar o comunismo no Brasil, através de uma grande conspiração envolvendo Cuba e Venezuela (ao contrário dos anteriores, este não é propagado pelos meios de comunicação tradicionais).

Bem, acabou a trégua carnavalesca. Todos as linhas de ataque repensam suas táticas de atacar o governo e vão partir para cima. Curiosamente, todas menos o delírio paranoico sofreram entreveros recentemente:

  • As manifestações tiveram que arcar com o acontecimento histórico de, pela primeira vez, um manifestante matar uma pessoa, o cinegrafista Santiago Andrade, em 06/02/14.
  • O noticiário econômico pessimista sofreu um baita revés com o PIB de 2,3% em 2013, superior ao dos EUA e ao da Zona do Euro, em 27/02/14
  • O julgamento do mensalão sofreu um baque após a indiscrição grosseira de Joaquim Barbosa, de que incluiu acusações unicamente para aumentar penas e fugir das prescrições, em 26/02/14.

Só os delírios conspiratórios da extrema-direita não sofreram reveses e  até marcaram para 22/03/14 uma “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, pedindo Golpe Militar (!!!) e relembrando a outra passeata de mesmo nome de 50 anos atrás, que também foi prelúdio para um golpe. (No fundo, acho que esta convocação é só para testar se a sandice tem algum poder de mobilização).

E os revezes não impedem que as outras táticas sejam adaptadas aos novos momentos.

O julgamento do “mensalão” agora vai ser tratado como uma “farsa” e os novos ministros serão execrados pela mídia. O problema é que o crime efetivamente cometido pelo PT, caixa-dois eleitoral, tem penas ridículas (as elites nunca fazem leis que vão realmente ameaçá-las).  O crime moral do PT, que sempre pregou ética e transparência, seria maior que a sua punição. Então foi necessário às forças oposicionistas criar o máximo de escândalo e dar a máxima punição para desmoralizar o partido que controla o poder executivo. Assim, farsa foi o que ocorreu antes, onde foram incluídas acusações como “lavagem de dinheiro” para aumentar penas e teorias como “domínio do fato” foram usadas para condenar sem provas, conforme reconhecido até por um juiz de direita como Ives Gandra Martins. Com a possível revisão de parte dos absurdos do julgamento do “mensalão”, o troglodita Joaquim Barbosa vai ter o álibi que necessita para se lançar candidato a presidente e fazer “a justiça que o sistema não lhe permite fazer”, como nesta ótima especulação do blog do Renato Rovai.

O noticiário econômico vai continuar o pior possível. Vai haver algum outro “pânico do tomate”, ainda por ser escolhido. Até Delfim Neto escreveu por aí que o bicho vai pegar. Como Delfim sempre foi próximo a este governo, isto é mais uma mostra de como a aliança com o capital é instável. Ah, e não espere que o Financial Times peça desculpas à Guido Mantega. Pra quem não lembra, o periódico inglês pediu (mais uma vez) que o ministro da Fazenda fosse demitido. Uma vez que o PIB britânico de 2013 foi inferior ao brasileiro, eles podiam reconsiderar quem deveria ser demitido…

O caso das manifestações é o mais complexo. Foi a linha de ataque que mais “sangrou” o governo, e já passou por duas mudanças de tática. No início de junho/2013 era tratado pela mídia como coisa de malucos. Subitamente, passaram ser endeusados, mesmo que “um pequeno grupo fizesse atos de vandalismo” no final de cada manifestação. Parece que a ideia era explorar ao máximo este conflito na Copa do Mundo. Mas a morte de Santiago Andrade trouxe outra reviravolta.

Desde o final do ano passado, ando desconfiado que alguém estava querendo um cadáver nas manifestações. Quando Santiago foi atingido, havia um discurso de que ele era “vítima da polícia”. Vejam o fluxo de comentários abaixo, retirados do site Diário do Centro do Mundo:

cinegrafista_policia_BBs

eis o mantra “a violência sempre parte da polícia”

Acredito que já havia uma história pronta no momento em que surgisse o “morto pela polícia”: manifestações e mais manifestações contra a “violência do Estado”, “não pararemos as manifestações até a renúncia do governador assassino”, e por aí vai. Mas a partir do momento que ficou insustentável a versão de que a polícia matara Santiago, mudou a forma como a grande mídia enquadrava as manifestações. Agora a grande ameaça não eram os governantes, mas os “jovens aliciados por R$ 150,00 pelo PSOL, Marcelo Freixo e a maléfica Sininho” e, além disso, era preciso “legislação específica para coibir os abusos em manifestações”.  Se alguém na esquerda contava com simpatia eterna da mídia, quebrou a cara. E, sinceramente falando, acho que alguns setores destas manifestações só lamentam a morte de Santiago porque atrapalhou a cobertura que tinham da mídia e ainda esperam conseguir o “morto pela PM” durante a Copa do Mundo. Pois é.

Como o mundo não para de rodar, após os últimos eventos na Ucrânia as “manifestações” estão meio expostas como um novo tipo de intervenção dos E.U.A.. No caso de Kiev, os yankees deram apoio logístico até a neonazistas (!!!). Isto explica algumas semelhanças no discurso e nos métodos entre eventos no Egito, Líbia, Turquia, Tailândia, Venezuela e… Brasil, sim Brasil – agora ficou claro mesmo que não era só por vinte centavos… Pena que pessoas a deputada Luciana Genro (PSOL-RS) pensem diferente, como visto no facebook dela:

Erro sério de Luciana Genro

Erro sério de Luciana Genro

O problema é que Luciana é candidata à vice-presidente do Brasil. “Revolução popular”?… Francamente.

E, por fim, tudo ainda está em aberto. Pode ser que daqui a sete dias todas as táticas de desestabilização do governo (ou “sacolejões”, como disse um certo cínico) estejam repensadas de novo. E pode ser que surja alguma nova. De qualquer forma, este ano continua prometendo fortes emoções.

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Provocadores?

Posted by Márcio Gonçalves em janeiro 13, 2014

caboanselmo02

Cabo Anselmo

Joaquim-Barbosa-2

Joaquim Barbosa

Em 1964, os golpes de Estado eram militares. Ok, o golpe de 1964 foi uma complexa articulação onde o principal conspirador foi o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), mas a face mais conhecida da história são os militares, por terem descido com as tropas, posto o pres. João Goulart pra fora e terem se apossado da cadeira da presidência durante 21 anos. O golpe do Brasil ficou com cara de golpe militar, como aliás acontecia em muitos países, e na América do Sul em especial.

Hoje em dia, os golpes militares saíram do terreno do aceitável. Agora todas as maracutaias são feitas através do Poder Judiciário. Começando pela polêmica eleição de George W. Bush, em 2000. Exemplos mais recentes são as deposições de Manuel Zelaya, de Honduras, em 2009, e de Fernando Lugo, do Paraguai, em 2011. Nos três casos, a atuação da Suprema Corte de cada país foi vital para o resultado, validando as situações de exceção.

Em 1964, o estopim para o golpe foi um evento militar. Em 2014, estamos caminhando para um evento jurídico que seria o estopim de um novo golpe?

Explico-me.  Em 64, a Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do BRASIL (AMFNB) realizou uma atividade no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio. A própria existência da entidade era considerada uma afronta ao oficialato. Os Almirantes mandaram prender os marinheiros, e João Goulart mandou soltá-los. Isto foi considerado apoio à “baderna” e ao desrespeito à hierarquia militar. 7 dias depois Goulart foi deposto pelo golpe.

O presidente da AMFNB, José Anselmo dos Santos, o “Cabo Anselmo”, fazia inflamados discursos esquerdistas, radicalizando a Associação. Na crise da Assembleia, apoiou fortemente as “reformas de base” anunciadas 10 dias antes por Goulart. Após o golpe, foi preso, fugiu para Cuba onde recebeu treinamento guerrilheiro, e voltou ao Brasil. Foi preso de novo, mudou de lado e passou a delator, entregando vários companheiros de luta. Muitos morreram, inclusive sua companheira, grávida de um filho dele. Na verdade, já há indícios de que o Cabo Anselmo era agente infiltrado dos militares e da CIA desde antes da crise da AMFNB. Um provocador. Todo o furor socialista de Anselmo nada mais seria que uma armadilha para João Goulart. Se for realmente isso, funcionou.

Joaquim Barbosa seria o Cabo Anselmo de hoje? Ele certamente não faz discursos esquerdistas, mas poderia estar fomentando um erro do governo. Seu comportamento durante todo o julgamento do “mensalão” incluiu ocultação de provas, condenações baseados em indícios tênues, ataques de pelanca contra qualquer contraditório, etc. Em novembro último, ao decretar a prisão dos “mensaleiros” petistas, iniciou uma sequência de abusos que parece pura provocação. Espetáculo de voo dos condenados, intervenção na supervisão do sistema prisional de Brasília. Chegou a ser qualificado como homem “mau” pelo jurista Celso Bandeira de Melo pelo tratamento dispensado a José Genoíno.

Qual o interesse de Barbosa? Irritar alguém no PT até lançarem uma nota tão destemperada quanto a que lançaram sobre Eduardo Campos? Fazer a presidente soltar um impropério contra ele? Matar Genoíno e levar petistas ensandecidos à porta do STF?

Ele quer, enfim, criar uma crise institucional e, com isso, conseguir o pretexto para um “golpe judicial”?

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50 Anos de um Golpe de Estado

Posted by Márcio Gonçalves em janeiro 11, 2014

anatomia_golpe_1964

Em 2014 se completam 50 anos do Golpe de Estado de 1964.  Foi o apogeu de uma articulação que vinha desde fins de 1961 e de uma vontade que já vinha de 10 anos antes.

O poder executivo, com João Goulart, (em vermelho-pálido na ilustração acima), tinha o apoio do PTB (seu partido) e do PCB, bem como das associações de classe: sindicatos, Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), UNE, etc. Recentemente também se soube, através de uma pesquisa IBOPE (não divulgada na época), que contava com apoio de boa parte da população, a “maioria silenciosa” do diagrama acima. Isto não foi suficiente para brecar o golpe.

Para começar, as outras instâncias do poder formal não estavam com Goulart. O legislativo era dominado pelo PSD, que foi passando de antigo aliado a golpista, ao ponto do presidente pessedista da Câmara, Auro de Moura Andrade, declarar “vaga” a presidência da república com o presidente ainda em solo nacional, logo após o golpe. Além disso, muitos deputados eleitos em 1962 contaram com verba do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), que vinha da CIA. O poder judiciário se fez de morto: não foi pró-golpe, mas nada fez para impedi-lo quando aconteceu.

O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) foi o grande articulador oculto do golpe, como já comentado neste blog. Conseguiu influenciar os militares, os meios de comunicação, o capital (financeiro, industrial e agropecuário), a religião e, por tabela, a classe média.

O IPES ajudou a articular os militares golpistas, mas as Forças Armadas já tinham uma tradição de intervencionismo no Brasil desde o final do Império. Estavam doidos para derrubar Vargas em 1954 e livrar o Brasil da “ameaça comunista internacional” (que se fosse tão ameaçadora assim teria conseguido articular alguma reação ao golpe…).  Além disso, desde o final da 2ª Guerra Mundial, oficiais brasileiros tinham se aproximado de oficiais do exército dos Estados Unidos. Por sua vez, os militares também se articulavam com políticos direitistas da União Democrática Nacional (UDN), como Carlos Lacerda e Magalhães Pinto .

Os meios de comunicação passaram a fazer terrorismo noticioso, enfatizando a narrativa de que o governo Goulart era corrupto, não conseguia controlar a carestia e incentivava a “baderna”.

Com os capitalistas, o IPES fez um trabalho de “consciência de classe”  e de angariar fundos para as suas atividades. Quem não contribuísse com dinheiro podia contribuir com passagens aéreas, como é o caso da VARIG, que franqueou viagens para alguns membros do IPES.

Na religião, na época predominava o catolicismo conservador. Teologia da Libertação ainda era uma pequena força crescente. Padres e bispos ajudaram a disseminar a imagem do comunismo ateu e assassino de sacerdotes para aterrorizada senhoras. Do trabalho da religião e da imprensa saíram os participantes da Marcha da Família com Deus pela Liberdade e das Marchas da Vitória, logo após o golpe.

Sobre o trabalho da CIA e da embaixada dos Estados Unidos, documentos recentemente liberados confirmaram que a articulação pró-golpe começou enquanto John Kennedy estava vivo. E havia compromisso da Quarta Frota aportar em águas brasileiras para dar suporte ao golpe, caso as coisas desandassem.

E assim foi. Todas estas forças somadas levaram o Brasil a um período de autoritarismo de 21 anos.

A redemocratização veio em 1985 e em 1989 o Brasil voltou a votar para presidente. De lá para cá já tivemos 6 eleições presidenciais. E note que na história do Brasil nunca havíamos tido uma sequência de 6 eleições presidenciais com voto universal (!!!). Os golpes militares acabaram. Os militares não dão sinais de querer voltar depois do desgaste da ditadura.

Mas, hoje em dia, pelo mundo afora, outros autoritarismos se impõem e se vê um outro tipo de golpe…

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Quem vai para a Rua?

Posted by Márcio Gonçalves em janeiro 5, 2014

Há uma grande expectativa de que aconteçam manifestações na Copa do Mundo que se aproxima. E há expectativas e desejos de que sejam manifestações tão grandes quanto as de junho de 2013.

Nas últimas semanas vários políticos de oposição ao governo federal, bem como diversos comentaristas da mídia oposicionista também manifestaram esta vontade. No caso deles, está claro que  desejam que as pretensas manifestações de 2014 consigam o mesmo que as de 2013: diminuir a popularidade de Dilma Roussef de modo a dar alguma chace à oposição na eleição presidencial.

Bem, para que os objetivos escusos da oposição sejam obtidos, as manifestações devem impressionar. Manifestações impressionam por duas razões:

número de participantes

violência dos confrontos

Manifestação que impressiona pelo número de pessoas - Av. Pres. Vargas, junho de 2013

Manifestação que impressiona pelo número de pessoas – Av. Pres. Vargas,  20 de junho de 2013

Para impressionar pelo número de participantes, como em junho de 2013, é necessário que tenha a mesma adesão. No momento, aposto que só têm presença confirmada os seguintes grupos:

extrema esquerda: apontando ao máximo as contradições de gastos da Copa num  país com serviços públicos precários, esquecem que, taticamente, o atual governo é a única opção viável eleitoralmente que tem um viés nacionalista, desenvolvimentista e de inclusão social.

extrema direita: reclamando de “corrupção”, salivam com a chance de acabar com um governo de centro-esquerda

black blocs: estão aí pro que der e vier, de preferência causando um certo quebra-quebra

Na ilustração da Av. Pres. Vargas, vê-se que a onda humana é muito maior do que normalmente a extrema esquerda e a extrema direita conseguem reunir. Havia muitos jovens que não eram militantes, indignados com diversas situações, que não se sentiam representados na política tradicional, etc. Acho que a maioria desse pessoal não volta espontaneamente. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar – vide o fiasco da manifestação de 7 de setembro.

Mas também é possível impressionar pela violência:

Manifestação que impressiona pelo confronto

Manifestação que impressiona pelo confronto – São Paulo, junho de 2013

Aí o pessoal já tem mais know-how. É mais fácil do que convocar uma grande massa. Os black blocs do Rio praticaram quase seis meses como se confrontar com polícia e criar crises políticas, até deixar Sérgio Cabral inviável eleitoralmente.

Assim, creio que as manifestações vão impressionar pelos confrontos.

Mas pode ser que não pare por aí.

Os confrontos podem deixar uma certa sensação de deja vu. Aí pode entrar a mídia oposicionista. Não tendo imagens de grandes multidões e ressentindo-se da repetitividade dos confronotos, podem fabricar um evento trágico: ferimentos sérios, espancamentos. A mídia pode criar uma narrativa paralela que lhe convenha e que impressione as pessoas – como fizeram no processo do “mensalão”. Para isso contam com a ajuda dos métodos de trabalho das nossas Polícias Militares (quando entram em ação, batem em todo mundo) e com aquela galera que vive pra criar um terror. O pessoal que espalha boato de fim de bolsa-família, que manda emails de “Dilma aborteira”, cria atentados de bolinha de papel – e outros atentados piores…

Vamos ver o que acontece. As perspectivas são interessantes.

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